Originalmente publicado em BRPress
Meu amigo Marcelo e eu criamos um hábito: uma vez por semana largávamos a correria do escritório e Ãamos tomar um copo e meio de garapa. Não uma garapa qualquer, mas a garapa do “seu†Chico.
Nada de lugar sofisticado ou ar condicionado. Seu Chico atendia sob árvores na calçada de um cruzamento pouco movimentado. Vestia jaleco branco e oferecia aos clientes dois bancos de madeira para um longo papo.
Ele sentava-se com dificuldade – tinha algum problema na perna esquerda – em um banquinho individual, que deixava a respeitosa distância dos fregueses.
Depois de preparar os dois copos gigantes, Seu Chico se dedicava ao laborioso mister de limpar criteriosamente cada parte da moenda, sempre prestando atenção aos clientes – nós – que conversávamos próximos dele.
Ao perceber que já se aproximava metade da bebida, prontamente oferecia “o chorinho  aquele extra que ele, evidentemente, produzia de propósito, só para agradar.
O ritual demorava uns 45 minutos. Ao final, ele já se despedia com um “até semana que vemâ€.
A garapa? Ah sim, era boa. Provavelmente tão boa quanto a de todos os outros três ou quatro garapeiros pelos quais passávamos para chegar no seu Chico.
O hábito perdurou por todo o tempo em que trabalhamos juntos. Dia desses resolvi dar uma passadinha lá e fiquei muito chateado porque não era mais o seu Chico que estava lá naquela esquina. Nem parei.
Novas (?) Empresas
Os mercados estão cada vez mais sofisticados. As relações entre clientes e fornecedores, cada vez mais complexas, estudadas, avaliadas, mensuradas, mas ainda assim, tensas. Ora, tem cabimento isso?
Eu posso falar com conhecimento de causa porque trabalho com isso o tempo todo. O computador nos trouxe a possibilidade de conhecer hábitos e preferências de cada pessoa, não importando a quantidade de pessoas com quem as empresas se relacionem.
Se o seu Chico conseguia fidelizar seus clientes apesar da concorrência acirrada, não era por nos tratar de qualquer jeito. Aquele pedaço de calçada era o lugar ideal para o refresco necessário naquele momento e ele só precisava fazer aquilo que sabia fazer: garapa.
Mas ele também se vestia adequadamente, tratava a todos com respeito e oferecia o “chorinhoâ€.
Mas o tempo todo vemos as empresas novas, grandes, gigantes, imensas, exatamente na contramão do que fazia seu Chico. O que acontece? Não é possÃvel imaginar que o tamanho e a quantidade de clientes seja um problema real.
Com a tecnologia disponÃvel para oferecer um atendimento absolutamente personalizado. Quando descobrimos que só uma das empresas de atendimento (call-center) emprega mais de 72 mil funcionários, começamos a perceber a dimensão do negócio e novamente me assalta a dúvida: Se existem empresas especializadas em atender clientes de outras empresas, por que não fazem direito?
O pior é que não existem tantas alternativas para prestadores de serviços como os concorrentes do seu Chico, portanto, essas empresas não se preocupam muito com isso.
A “praga†das redes sociais
Desde sempre o ser humano se relaciona com outros da sua espécie. Crescemos no meio de um cÃrculo de amigos e conhecidos, que estava presente no nosso dia-a-dia.
A profissionalização das relações fez com que adotássemos outros termos. Conhecer pessoas passou a ser chamado “network†e o espaço para encontrar com essas pessoas, redes sociais.
Portanto, para falar a verdade, estamos falando da mesma coisa o tempo todo: relacionamento pessoal.
Mas as empresas começaram a perceber que precisam saber o que está sendo dito pelas ruas, digo, pela internet, então passaram a integrar essas redes sociais.
O problema é que em vez de tentar retornar ao velho e conhecido papo do dono com o freguês, essas empresas resolveram que querem controlar o que está sendo dito ou se recusam a interagir de verdade. Aà a coisa pega! Aliás, como sempre aconteceu.
As pessoas que não gostavam de se relacionar nas rodas de amigos eram sempre adjetivadas de forma pouco lisonjeira. Alguns eram “… de ferroâ€, outros “… doceâ€, “dondocasâ€, â€frescas†etc. A seleção variava muito, mas a idéia era a mesma.
Como em todo lugar, algumas pessoas conheciam e eram conhecidas por todos, que passaram a se chamar “formadores de opiniãoâ€. Outros eram “presidentes do DIVA (Divisão de Investigação da Vida Alheia)†ou simplesmente fofoqueiros-mór, que também encontram seu correspondente no mundo virtual.
Junte-se a falta de disposição para uma conversa franca e o descontentamento de algum membro da rede, com a atuação de um formador de opinião e temos uma mistura altamente explosiva e perigosa para as empresas.
Sem saÃda
O problema é que não é mais possÃvel deixar de atuar nessas redes, simplesmente porque a ausência das empresas não fará com que as redes deixem de existir.
Marqueteiros de plantão vivem tentando convencer o cliente a utilizar “canais oficiaisâ€, como se a empresa fosse um órgão determinante das conversas e relacionamentos. Não são!
Às empresas resta a constatação de que não há alternativa, portanto, vistam seus jalecos brancos, sentem-se no banquinho ao lado de seus fregueses e façam seu trabalho.
Não tentem se meter na conversa, nem impedir que se fale.
O bom atendimento pode compensar até mesmo uma deficiência no produto ou serviço. O contrário, nunca acontece.