Este texto foi publicado em Janeiro de 2007 no Correio do Estado, jornal de MS. Não mudei nem uma vÃrgula, portanto, é possÃvel que algumas questões estejam ultrapassadas.
Infelizmente o jornal alterou seu sÃtio e não oferece mais as matérias online, portanto, republico aqui como forma de embasar minha discussão a seguir:
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PAC, CBD (Conversa para Boi Dormir) ou PUM? (22/jan/07)
Num passado não muito remoto, os regimes autoritários de direita eram considerados o grande problema da América Latina. O Peronismo e a ditadura militar na Argentina, Pinochet no Chile, Getúlio e a ditadura militar no Brasil, todos com seu caráter messiânico, apresentando-se ao povo ignaro como únicos detentores da salvação.
Como o mundo não aceita mais a adoção de regimes totalitários, vemos os movimentos populistas â?? que se autodenominam populares â?? tomarem conta da América Latina, agora ligados à s esquerdas, sempre buscando sua sustentação no povo mais sofrido.
Chavez na Venezuela, Morales na BolÃvia, Correa no Equador e Lula no Brasil, todos pretendem esquecer que â??não existe almoço de graçaâ?, que não existem ações sem reações, que podem apoderar-se da poupança alheia sem custo futuro, acreditando que podem deixar de pagar suas contas.
O Mercosul, evidentemente uma estrutura com caracterÃsticas econômicas, passou a ser simplesmente um palanque polÃtico para chefes de Estado que não gostam de descer deles e que pretendem decretar-se auto-suficientes.
Seria conveniente lembrá-los o resultado do isolamento da Albânia, como se encontra a estrutura produtiva de Cuba, como foi destruÃdo o setor produtivo na Polônia, já considerada a maior potência européia do setor de máquinas ferramentas, para citar alguns. Nossos â??hermanosâ? e â??companheirosâ? devem estudar mais a história.
Reeleito, Lula prometeu um grande projeto de crescimento econômico. Gestado durante longos três meses, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) evidencia o que já se imaginava: a montanha pariu um rato.
Se reduzir a SELIC resolve tudo, como num passe de mágica, não seria o caso de chamá-lo de â??ABRACADABRAâ??
Um detalhe: na década de 80 os juros básicos da economia eram negativos e vivÃamos um perÃodo de estagflação inacreditável. Estagflação é um â??palavrão do economêsâ? que descreve uma situação de estagnação econômica que convive altos Ãndices de inflação, também conhecido como hiperinflação.
Mais uma vez estamos perdendo o bonde da história enquanto outras nações, com melhor visão de futuro e capacidade de análise, resolvem aboletar-se nos poucos assentos disponÃveis para a viagem do desenvolvimento.
Não é a primeira vez que o Brasil perde oportunidades: Os anos 80 foram considerados â??a década perdidaâ?, já que enquanto o mundo se desenvolvia como possÃvel, o povo tupiniquim amargava os efeitos de uma inflação descontrolada que sangrou as pequenas economias até a exaustão, enquanto estufou os bolsos daqueles que puderam proteger-se adequadamente de seus efeitos devastadores. A economia brasileira, que vinha de um perÃodo de crescimento de cerca de 7% ao ano, passou a apresentar crescimento negativo, ou seja, regrediu.
Nessa mesma época os chamados â??tigres asiáticosâ? romperam a barreira da ignorância, investiram em capacitação e passaram a colher os frutos de sua visão de futuro, inserindo-se no mercado internacional num momento em que pouco se falava em â??globalizaçãoâ? . Hoje são potências econômicas.
Nós, que já tivemos nossa economia situada entre as oito maiores do mundo, à frente da Itália, vemos nossa participação cair ano a ano. Em 2003 já estávamos em 15º. lugar e hoje somos considerados a 70ª. no ranking das â??mais livres do mundoâ?.
Nunca o mundo viveu um perÃodo tão longo de crescimento contÃnuo. A economia mundial sempre teve seus movimentos registrados em â??ondasâ? que alternavam momentos de crescimento com perÃodos de recessão, o que não ocorre há dez anos.
Não existe um culpado único que justifique todos os problemas. Vivemos o resultado de uma sucessão de erros que pela falta de memória do brasileiro, são repetidos à exaustão.
Passamos por moratórias, confiscos, congelamentos, tablitas, muitos planos mirabolantes e um que funcionou no combate à inflação, mas nada que promovesse a confiança do investidor, esse sonhador que acredita na sorte de não ver seus projetos naufragarem a partir da ação de uma caneta insana e despreparada.
Estão aà os problemas do setor agropecuário, provavelmente o mais dinâmico do paÃs, a demonstrar o que acontece quando se acredita na sorte e na boa vontade do Governo. Para esse setor, nas palavras de Roberto Rodrigues, ex-ministro da agricultura, â??O céu é o limiteâ?, no entanto, vive à espera de sinais do poder público que nunca vêm.
Secas e enchentes, gripe aviária e aftosa, estradas e aeroportos são questões econômicas, sim, e economia não é coisa para amadores nem para quem está instalado em um palanque eterno.
O Brasil investe 20% do PIB (Produto Interno Bruto). Destes, 19% são do setor privado e somente 1% é do governo â?? dos 38% que retira compulsoriamente de cada um de nós â?? no entanto é nesse segmento (de 1%!) que estão focadas as ações previstas no PAC. Afinal, não será o cachorro levando o dono ao passeio?
Para atingir os 5% de crescimento, existe uma rara unanimidade entre os economistas: é preciso aumentar o nÃvel de investimento de 20% para 25% do PIB e para isso, é fundamental que o setor privado tenha segurança institucional.
Leis e acordos tem que ser cumpridos, licitações devem ter como princÃpios norteadores a eficiência e a eficácia, e não o interesse deste ou daquele agente, pagamentos devem ser feito na data do vencimento, mesmo que o pagador seja o setor público. Coisas básicas em qualquer lugar mas que neste paÃs, têm sido simplesmente desconsideradas.
Como o esperado Programa de Aceleração não tocou nesses pontos, para ser mais esclarecedor, deveria ser chamado de CBD â?? Conversa para Boi Dormir ou adotar o singelo pseudônimo de PUM, cujo significado é conhecido de todos.