[Economia de Convergência] O custo de ser a mulher de César

Publicado originalmente em minha coluna no BRPress

Pompéia era mulher de César e foi responsável pela organização dos ritos da Bona Dea (“Boa Deusa”) em Dezembro, exclusivos às mulheres e considerados sagrados. Mas durante as celebrações, ”Públio Clódio Pulquer” conseguiu entrar na casa disfarçado de mulher.

Em resposta a este sacrilégio, do qual não foi provavelmente culpada, Pompéia recebeu uma ordem de divórcio. César admitiu publicamente que não a considerava responsável, mas justificou a sua acção com a célebre máxima: “à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”.

Você deve ter ouvido algo a respeito da COP15, a cúpula que discutiu medidas para tentar conter o aquecimento da terra em função das emissões de gases-estufa.

Além do encontro dos líderes mundiais e de uma participação bastante ativa até mesmo do presidente Lula, o evento contou com inúmeras manifestações paralelas, todas chamando a atenção para a necessidade de fazer algo mais concreto para evitar uma catástrofe.

Dentre os eventos, um chamou a atenção: o Troféu “Sereia Zangada”. O “prêmio” é concedido pela ONG Amigos da Terra Internacional e tem como símbolo uma sereia que está aborrecida pela poluição dos mares.

O engraçado é que o troféu foi concedido a uma das empresas que mais investe na imagem da consciência ecológica, a Monsanto. Isso tudo em função dos alimentos geneticamente modificados que passou a desenvolver e que são o centro de uma campanha em todo mundo.

A justificativa para condenar a empresa é o fato de que a soja modificada estaria promovendo o desmatamento.

Por outro lado, a empresa declara que “se orgulha de fazer parte da ‘nova Revolução Verde’, ao apostar na biotecnologia e desenvolver tecnologias que contribuem para aumentar a produção de alimentos, ao mesmo tempo em que reduzem o uso de agroquímicos, água e combustíveis e a emissão”.

Nesta altura do campeonato, pouco importa quem está com a razão, quem diz a verdade ou quem falta com ela. O estrago na imagem já está feito.

Eu não defendo ou critico a empresa, simplesmente constato que, independente dos esforços, dos investimentos em mídia e publicidade buscando criar uma aura de defensora do meio ambiente, é preocupante que tanta gente tenha a percepção exatamente oposta.

O tema “meio ambiente” estará cada vez mais presente em nossas vidas. Nada vai escapar e as empresas serão obrigadas a se comportar de forma absolutamente inequívoca em relação ao assunto.

As questões relacionadas a atendimento do consumidor não serão esquecidas de forma alguma. São consideradas ultrapassadas pelo mercado desenvolvido. Hoje o consumidor parte do pressuposto de que tem que ser bem atendido, no prazo acertado e nas condições determinadas. Além disso, ele quer comprar de um fornecedor que se importe com a natureza e com as pessoas que produzem.

Claro que ainda temos um longo caminho a percorrer e que a invasão de produtos chineses de preço baixíssimo e nenhuma preocupação com os aspectos sócio-ambientais ainda está causando muitas perdas na indústria do restante do mundo, mas essa tendência não é sustentável.

O mais interessante é que não adianta nada “parecer” consciente. O mercado é extremamente sensível, as informações divulgadas instantaneamente por todo o globo. Como esconder algo ou tentar restringir a divulgação? Impossível.

No Brasil ainda temos um longo caminho a percorrer nesse aspecto, não só em termos de consciência empresarial, mas também, do consumidor.

Sei que esta é uma época estranha para falar nisso porque, afinal, Natal é o momento do consumo exagerado, sem sentido. É o porre anual do consumismo tresloucado, justificado pela confraternização familiar e abençoado pela religião. Mas desconsiderando tudo isso, até quando o consumidor poderá transferir ao fornecedor toda a responsabilidade pela consciência ecológica e social?

Se às empresas é exigido que se comportem e demonstrem ser realmente preocupadas com as questões de interesse comum, até quando os consumidores poderão eximir-se de arcar com sua parcela de responsabilidade para tratar desses assuntos?

Num mundo em que nada (fora o Bin Laden) consegue se manter oculto por muito tempo, em breve nós, consumidores, precisaremos encarar o fato de que se existem empresas desonestas é porque nós as alimentamos, porque aceitamos tranquilamente o fato de que elas promovem a desigualdade ao manterem preços excessivamente baixos, aniquilando a concorrência e pagando mal seus funcionários.

As empresas precisam, sim, investir e acreditar na necessidade de serem mais conscientes de seu papel na sociedade e na construção de uma humanidade melhor e mais harmônica. E o consumidor?

Esse é o custo de ser e parecer um Cidadão 2.0!

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