A frase não é minha, mas de José Abelardo Barbosa de Medeiros, mais conhecido como Chacrinha, um pernambucano nascido em 1917 na cidade de Surubim, da qual provavelmente você nunca ouviu falar.
Ã? muito possÃvel também que você nunca tenha assistido a um programa de Chacrinha na televisão, o que indica que é pequena a probabilidade de você já sofrer com as dores de coluna que me tiraram do ar durante alguns dias, mas isso não invalida a comparação com a importância de internet na atualidade.
Em uma época absolutamente circunspecta, de apresentadores trajados de terno cinza, gravata preta e camisa branca, Chacrinha se apresentava com roupas absolutamente extravagantes, cartolas e acessórios non-sense como discos de telefone (isso mesmo, telefone tinha disco, não teclado) e buzinas penduradas no pescoço. A irreverência era tamanha que causava a ira de muita gente (meu pai no meio), mas conseguiu agradar multidões, criando bordões como o que dá tÃtulo a este texto.
Como economista-ecologista, tenho dado especial atenção ao comportamento das empresas em relação à comunicação e à construção de seus valores.
Veja que primoroso exemplo de missão institucional que copiei na internet, por indicação do amigo Paulo Granja:
â??Promover a formação integral do indivÃduo, por meio da capacitação profissional, da produção e aplicação do conhecimento, da promoção da cultura, do respeito aos valores éticos-morais, através de um processo educativo contÃnuo de qualidade, voltado para o desenvolvimento da sociedadeâ?.
Não é bonito? E seu eu disser que essa é a missão da UNIBAN, universidade de onde uma aluna foi expulsa sob xingamentos, por estar trajando um vestido curto? (se não acredita, por favor, visite o endereço http://www.uniban.br/institucional/missao.asp).
Mas, afinal, o que tem a ver Chacrinha com Uniban e o cidadão 2.0? Tudo!
Só vou usar a universidade como exemplo. Aliás, um ótimo exemplo para demonstrar o que nunca deve ser feito.
Em linhas gerais, tirando os matizes e cores excessivas, uma aluna da universidade foi à aula com um vestido que algumas alunas julgaram inadequado por ser muito curto. Estas se manifestaram de forma agressiva, conseguindo pelo â??efeito manadaâ?, que outros alunos engrossassem as fileiras dos perseguidores. Animados pela adesão, aos impropérios sucederam demonstrações crescentes de total falta de civilidade.
Até aqui, falamos de um grupo de alunos. No entanto, a desastrada intervenção da direção da escola foi muito mais esclarecedora deste maravilhoso case do tipo â??o que não fazerâ?.
A â??manifestaçãoâ? dos alunos não só não foi debelada a tempo como a aluna acabou saindo da escola sob proteção policial e coberta com um jaleco. Não satisfeito com a falta de atitude, o diretor resolveu expulsar a aluna atacada (mas ela não era a vÃtima?).
Eu não estava lá, não sei se o vestido era curto, transparente, adequado ou não, mas não me interessa. Também não vou considerar que provavelmente alguma novela apresenta imagens muito mais â??picantesâ? e que qualquer biquÃni é menor do que um suposto micro-vestido.
Interessa é que um episódio ocorrido dentro dos muros de uma faculdade acabou assumindo proporções internacionais. O caso foi mencionado em diversos jornais do mundo e até na BBC e em jornais da China. Assim é a sociedade 2.0.
O estrago já está feito. Os alunos que não tiveram absolutamente nada a ver com o caso se ressentem das crÃticas e piadinhas de todos os que não são alunos da instituição. Como negócio, evidentemente é péssimo para os resultados e, embora o episódio venha a ser esquecido no futuro, com toda certeza a imagem será negativamente afetada.
Que bom que sempre conseguimos tirar lições e avanços dos erros. A expulsão da vÃtima foi revogada, a aluna já recebeu convites de outras escolas interessadas em capitalizar o episódio. Se ela der sorte, pode acabar nas páginas de alguma revista masculina, mas dificilmente a Uniban conseguirá sair ilesa, sem cicatrizes profundas.
Faltou visão aos responsáveis que perderam a ótima oportunidade de se comunicar claramente com o público e demonstrar o equilÃbrio e fidelidade à missão institucional de promover â??do respeito aos valores éticos-moraisâ?.
A universidade acreditou que poderia â??controlar o episódioâ? expulsando a garota. São senhores de terno cinza, gravata preta e camisa branca, num mundo absolutamente tomado por Chacrinhas-Blogueiros-Orkuteiros-Twiteiros comunicadores.
Para quem, como eu, lembra do Chacrinha na TV e, portanto, está mais sujeito a dores de coluna, alguns dados importantes: Segundo uma pesquisa da Vox Populi, â??sites de notÃcias e blogs jornalÃsticos já são a segunda principal fonte de informações, citados como primeira opção por 20,4% dos entrevistados e ficando atrás apenas da TV, com seus 55,9%. Jornais impressos contam com 10,5% e rádio com 7,8%.
Aos senhores circunspectos por trás das mesas de empresas, um recado: â??Quem não se comunica, se trumbicaâ?.