Recebi este texto do acadêmico Cauê Torigoe Kalmus. Como alguns dos leitores são também acadêmicos e buscam fontes de pesquisa, resolvi reproduzir o trabalho.
Origens da crise
A crise financeira enfrentada hoje teve inicio nos EUA, quando milhares de americanos tomaram empréstimos em bancos, visando a compra da casa própria, ou hipotecar as que já possuiam.
Com a alta procura, em 2006 o preço dos imóveis atingiu nÃveis históricos, aumentando também a taxa de juros no paÃs, que atingiram o maior nÃvel desde 2005. Devido a essa alta nos juros, o mercado imobiliário deixou de ser atrativo, e os preços dos imóveis começaram a cair.
Com os preços dos imóveis em baixa, novas hipotecas alcançaram preços menores e empresas de concessão de crédito começam a sofrer com a inadimplência.
No inÃcio de 2007 a crise chegou à bolsa de valores. Com as prestações dos imóveis pressionando o orçamento, os americanos têm menos dinheiro disponÃvel para o consumo, causando uma desaceleração na economia. Junto com a desaceleração da economia americana, o resto do mundo também desacelera.
Efeitos no 1º mundo
A economia americana encontra-se em recessão desde dezembro de 2007. Em mais de um ano de crise, a economia americana recebeu um pacote de US$ 700 bilhões no ano passado e a atual administração, do presidente Barack Obama, já conseguiu aprovação dos deputados em Washington para mais um, de US$ 819 bilhões para estimular a economia e ajudar instituições à beira da falência.
Mesmo assim seis grandes empresas de crédito faliram e quase 900 instituições financeiras de pequeno e médio porte ficaram comprometidas.
Por causa da maior dificuldade de obter financiamento, a venda de carros também sofreu uma grande redução, o que obrigou as montadoras a pedir ajuda ao governo. Com a redução nas vendas, houve uma redução na produção, o que causou demissões em vários setores, não apenas no automobilÃstico.
O impacto da crise internacional na Europa foi ainda maior do que nos Estados Unidos. Enquanto a queda global do PIB no último trimestre de 2008 foi de 1,5%, a Alemanha, â??locomotivaâ? da UE, apresentou uma queda de 2,1%. A produção industrial de dezembro 2008 foi 11,5% inferior à do mesmo mês em 2007. Em janeiro, as vendas de veÃculos caÃram 27%.
O sistema financeiro europeu passa pelas mesmas dificuldades que o norte-americano e as medidas adotadas também tem se mostrado simples paliativos.
Foi assim com as sucessivas baixas das taxas de juros, com as injeções de recursos feitas pelo Banco Central Europeu (BCE) e com as intervenções dos governos. Mas o crédito não flui e os bancos continuam vendo seu valor de mercado evaporar.
A previsão oficial da UE para 2009 é de uma queda média de 1,8% do PIB, mas o estudo prevê que na Irlanda e nos paÃses a diminuição seria de 5%. Na Grã-Bretanha, de 2,8%.
O desemprego oficial da UE aumentou em 1,6 milhão. Em 2008, chegou a 18 milhões de pessoas, 7% da população ativa. A previsão oficial para 2009 é de 3,5 milhões.
A confiança econômica na zona do euro atingiu novo recorde de baixa em março, assim como as expectativas de inflação dos consumidores e dos empresários, segundo pesquisa da Comissão Européia divulgada em 30/03.
Efeitos nos paÃses emergentes
O Brasil demorou a ser atingido pela crise. Os bancos brasileiros não possuÃam papéis ligados à s hipotecas de alto risco que originaram o problema. Mas vários setores sofreram pela contração do crédito, e depois, pela redução nas exportações e demanda interna.
O resultado foi o aumento na taxa de desemprego e a expectativa de desaceleração no crescimento econômico do paÃs, embora espere-se que fique melhor do que o da maioria dos paÃses desenvolvidos e emergentes.
As quebras e os problemas enfrentados por bancos americanos e europeus até então considerados importantes e sólidos geraram o que se chama de “crise de confiança”.
Num mundo de incertezas, o dinheiro pára de circular – quem possui recursos sobrando não empresta, quem precisa de dinheiro para cobrir falta de caixa não encontra quem forneça. Isso fez cair e encarecer o crédito disponÃvel e numa economia globalizada, a falta de dinheiro em outro continente afeta empresas no mundo todo.
No Brasil, a dificuldade de obter dinheiro foi o principal efeito da crise. Grandes empresas que dependiam de financiamento externo passam a encontrar menos linhas de créditos disponÃveis. Por consequência, com a dificuldade em captar no exterior, ficam comprometidos projetos de construção dessas empresas, que por sua vez gerariam empregos e renda ao paÃs.
Outra consequência da crise é haver redução no consumo das famÃlias e do investimento das empresas, dois dos principais pilares de expansão da economia nos últimos anos. Eles cresceram justamente pela farta oferta de crédito. Com menos dinheiro, gasta-se menos, produz-se menos e o crescimento é menor.
Também são afetadas as exportações do paÃs, que devem cair porque os paÃses compradores estão se desaquecendo e possuem menos dinheiro para comprar.
O próximo passo dos problemas causados pela crise no Brasil é o desemprego. A combinação das reduções do consumo interno, do crédito, das exportações e dos investimentos causa uma diminuição da demanda das empresas, que se vêem obrigadas a rever seus quadros de funcionários. Os setores que mais sofrem com a queda da demanda, tanto no Brasil como no resto do mundo, são o automotivo, o imobiliário e o de bens de capital (ligado aos investimentos).
Isso ocorre porque vendem produtos que dependem diretamente de financiamento, que está escasso. O reflexo da crise se espelhará no desempenho do PIB brasileiro. Para 2009, as previsões dos analistas de mercado é de crescimento de 1,8% – abaixo dos 3,2% esperados pelo próprio BC e dos 4% esperados pelo governo federal.
Outro reflexo visÃvel da crise no mundo, e que teve especial repercussão no Brasil, foi a forte queda nos mercados acionários. Trata-se de um ciclo sem fim: com medo da crise financeira aumentar, os investidores tiram o dinheiro das Bolsas, consideradas investimentos de risco. Então, faltam recursos para as empresas investirem e a crise aumenta, o que faz os investidores tirarem mais dinheiro.
A China, outro importante emergente, adotou medidas para facilitar o crédito, reativar a construção imobiliária e favorecer as exportações. Também anunciou um plano de medidas fiscais e investimentos de 586 bilhões de dólares até 2010. O crescimento econômico da China caiu a 9% no terceiro trimestre, o ritmo mais lento em cinco anos. Além disso, a produção industrial cresceu 8,2% em outubro, em comparação com o mesmo perÃodo do ano passado, enquanto a alta em setembro foi de 11,4%. O superávit comercial da China caiu 43,5% em fevereiro no confronto com um ano antes, para US$ 4,84 bilhões.
As exportações recuaram 25,7% no segundo mês de 2009 ante mesmo perÃodo do exercÃcio passado, ficando em US$ 64,9 bilhões, e as importações tiveram queda de 24,1%, para US$ 60,1 bilhões. O governo chinês anunciou o aumento das taxas de devolução fiscal à s exportações em setores-chave da economia, com o objetivo de apoiar as vendas da China ao exterior. As vendas ao exterior foram a locomotiva do crescimento econômico chinês nos últimos anos, que ultrapassou os dois dÃgitos.
No entanto, a recessão global atingiu especialmente a indústria exportadora chinesa, o que deixou mais de 20 milhões de operários imigrantes chineses sem trabalho no último ano.
Para enfrentar a crise, o Governo anunciou um plano de choque com um investimento de 4 trilhões de iuanes (US$ 585 bilhões), voltado a infraestruturas e desenvolvimento social.
Conclusões
Crises são comuns e esperadas no capitalismo. O aspecto realmente impressionante nesta crise, além da sua extensão, é o fato de que os paÃses perceberam rapidamente a necessidade de uma atuação em conjunto para que seus efeitos não perdurassem mais do que o suportável, a fim de evitar que sucumbisse toda a estrutura do sistema.
Os bancos centrais atuaram de forma harmônica, reduzindo taxas de juros e garantindo um mÃnimo de liquidez aos bancos privados.
Mas o problema definitivamente não está resolvido. A estrutura do sistema deverá sofrer definitivas alterações, levando-o a considerar outras questões como o valor efetivo da produção (em contraposição aos rendimentos financeiros), a necessidade de integrar economias consideradas marginais até o inÃcio da crise, enfim, a mudança de diversos paradigmas que estavam até então cristalizados nas economias do â??velho continenteâ?.
Um exemplo do quanto isso é verdadeiro pode ser constatado na visita do primeiro ministro britânico ao Brasil. Gordon Brown defendeu abertamente a integração do Brasil às decisões mundiais, até agora tomadas pelo chamado G8.
Essa não é uma concessão. Pelo contrário, é a constatação de que as populações dos BRIC (Brasil, Rússia, Ãndia e China), representarão em breve algumas das maiores economias do mundo.
Entre os quatro, parece haver vantagens em termos de mercado interno para a China e Ãndia, enquanto o Brasil apresenta os melhores fundamentos econômicos mas, tanto quanto a Rússia, é um exportador de commodities, portanto, sofre os problemas relativos à definição de preços.
A Europa, neste particular, parece em situação muito pouco cômoda porque seu mercado interno é significativamente menor que o americano e está perdendo posições inclusive para paÃses do BRIC (a China já ultrapassou a Alemanha).
O capitalismo parece estar convergindo para um sistema mais embasado na produção â?? seja de bens tangÃveis ou de conhecimento â?? e menos na especulação financeira, o que fará com que velhas economias se reinventem.
Ã?s novas cabe o papel de se estruturarem para fazer frente aos novos desafios globais.