Monthly Archive for março, 2009

Escutatória – Rubem Alves

de Rubem Alves
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil.

Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Ã? preciso também não ter filosofia nenhuma”.

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora.

O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. Ã? preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas”.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico”) , foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala.

Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.

Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais.

Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos.

Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. Ã? preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”. Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. Ã? coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”. Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições.

Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia.

Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci.

O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo.

Uns poucos bancos arranjados em U definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado.

O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: Meus irmãos, vamos cantar o hino… Cinco minutos, dez, quinze.

Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. � preciso silêncio dentro.

Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar.
A música acontece no silêncio.
� preciso que todos os ruídos cessem.
No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou.
A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. 
Somos todos olhos e ouvidos.

Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala. 

Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio.Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

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O pacote da construção em MS

Se sair do papel, o plano de construção de moradias que o governo federal lançou na semana passada, tem boas chances de se tornar mais do que um pacote, o embrião de uma política de habitação no Brasil.

A previsão de construção de 1 milhão de residências mal faz cócegas no déficit habitacional estimado pelo IBGE (que superaria 7 milhões de residências), mas é muito importante em termos de eficiência do setor.

Construção Civil no Brasil

Segundo a consultoria McKinsey, a produtividade brasileira equivale a 32% da norte-americana. Mas esse não é o pior resultado encontrado. Estudos desenvolvidos no Brasil indicaram que a produtividade nos canteiros brasileiros encontra-se em 45 horas/m2. Na Dinamarca a produtividade era de 22 horas/m2 em 1974!

Outro estudo, este de 1993, indica que a produtividade no Brasil é inferior a um quinto (menos de 20%) da produtividade dos países industrializados.

Essa situação deve-se a dois aspectos principais: Falta de política habitacional e falta de capacitação da mão de obra. Planejamento e capacitação sempre foram os nossos pontos fracos. Exatamente aqueles que parecem sempre estar na boca de 100% dos que sobem num palanque.

Valores locais

A região Centro-Oeste ficará com 7% dos investimentos, ou seja, R$2,38 bilhões de um total de R$34 bilhões. A divisão foi determinada em função do déficit regional – e não pela cor dos olhos da população – o que é um bom começo.

O importante para o setor em MS é, agora, posicionar-se de forma estratégica e resolver os problemas crônicos, conhecidos desde há muito tempo mas que permanecem presentes.

Problemas antigos

Esse é o caso, por exemplo, do desperdício de materiais. Diversas pesquisas nacionais (Skoyles (1976); Pinto (1989); Picchi (1993); Grupo de Gerenciamento UFSC (1997); Moraes (1997) etc.) demonstram que as variações enquanto desperdício são enormes, dependendo do grau de profissionalização do construtor, constatando-se casos de índices semelhantes aos dos países desenvolvidos, o que demonstra que sabemos fazer bem feito.

Mas essa não é a regra. Só para dar um exemplo, o desperdício de concreto usinado atinge, em algumas situações, 23,34%.

O entulho de uma construção no Brasil não costuma ser reciclado, como em outros países, o que gera um custo ambiental  ”invisível”, além daquilo que acaba sendo transferido ao comprador do imóvel.

Sistema “S”, CREA, CRECI, Universidades

A incorporação de tecnologia, a profissionalização da mão-de-obra, acompanhamento técnico e pesquisa intensiva são aspectos que precisam estar presentes para que possamos aproveitar a oportunidade que a crise internacional nos traz. 

Eis uma boa chance de demonstrarmos para que servem as entidades relacionadas à atividade. 

Os recursos devem vir. Não será muito mas o suficiente para que, bem aplicado, traga  bons resultados para a população do estado.

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Justiça cega? será?

Um dos grandes problemas enfrentados pela economia brasileira (não sou eu falando, são vários estudos internacionais) está exatamente na falta de marco legal, ou melhor, na facilidade com que nossa legislação é interpretada de acordo com o enfoque do poder.

Eu não sou procurador de nenhum dos casos que vou mencionar aqui, não os conheço, não tenho interesse direto em nenhuma das discussões, no entanto, causa-me espécie a forma díspar com que são tratados pela justiça brasileira.

1. Camargo Correa: â??Prender é também igualar, equiparar. Como o é libertar. Tais decisões, quando lastreadas na Constituição e na legislação infraconstitucional, tentam fazer com que pretensões individuais coincidam com os interesses da coletividadeâ?. Essa foi a justificativa do juiz da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, Fausto Martin De Sanctis para mandar prender, mesmo sem ter certeza de nenhuma das imputações, os diretores e funcionários da empresa.

O juiz informa, ainda, que não se trata de â??medida midiática (como insistentemente veicula-se acerca de investigações conduzidas pela Polícia Federal), mas medida absolutamente indispensável para a apuração séria, criteriosa e circunspecta, com foco na sua eficácia”.

2. Daslu: A proprietária, Eliana Tranchesi, foi condenada em primeira instância (e imediatamente presa) a 94 anos e meio de cana. Não existe algum dispositivo legal neste país que determina que a prisão só deve ocorrer após trânsito em julgado, quando não houver mais recurso?

3. Pimenta das Neves: O jornalista Pimenta Neves (lembra, aquele que matou a namorada num condomínio?) foi condenado a 15 anos, e aguarda o julgamento do recurso em liberdade.

4. von Richtoffen: Suzane von Richtoffen, planejou a morte dos pais a pauladas porque não aceitavam o namorado, foi condenada a 39 anos.

5. Olivetto: o sequestrador de publicitário Washington Olivetto, que ficou amarrado dentro de um cubículo por um tempão, pegou 30 anos.

O que isso tem a ver com economia? TUDO.

Um país precisa ter uma legislação que tenha sempre a mesma interpretação, não importando quem seja o freguês. De outra forma, as coisas ficam complicadas para serem entendidas por essa gente de país desenvolvido que está acostumada a acreditar no que está escrito.

Outra hora escrevo mais a respeito, contando o que perdemos exatamente porque nossa justiça é tudo, menos cega.

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Independência ou Morte (3)

Em economia a interligação dos problemas é óbvia e os seus efeitos precisam ser acompanhados de perto.

Ontem publiquei aqui uma breve reflexão a respeito da importância do fechamento das unidades do Frigorífico Independência e da necessidade do mercado de se posicionar em relação ao tema (ver AQUI).

Os mais radicais com certeza se utilizarão da crítica fácil, alegando que no momento das “vacas gordas” (desculpe o trocadilho) os frigoríficos não dividiram seus lucros mas agora querem socializar o problema.

A questão é muito mais complexa. O fato é que a chamada “cadeia da carne” é um dos principais pilares da economia local e não pode ser tratada como se fosse de menor importância.

A situação do Independência agora começa a “respingar” nos frigoríficos pequenos e médios. Em condições normais, o fim de um concorrente acaba criando uma oportunidade para os demais. Só que não estamos em condições normais. Estamos no meio de uma crise internacional, que  trouxe uma retração do crédito e agora os bancos estão muito mais seletivos para a concessão de recursos.

Se antes os frigoríficos menores poderiam ser a válvula de escape para escoamento da produção dos pecuaristas, agora  acabam não conseguem ampliar suas escalas de abate exatamente porque lhes falta crédito.

Esse é o momento de estruturar uma atuação conjunta. Poder público, entidades de representação dos produtores e frigoríficos. O interesse é comum em solucionar o problema. Vamos deixar de lado os queixumes e partir para a ação!

Se lhes faltar imaginação, é só entrar em contato que eu posso sugerir diversas alternativas de arranjo para isso.

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Geoparques – aula inaugural

Paulo Boggiani ministrará aula inaugural na UCDB no dia 27 de março (sexta-feira) das 9h30m às 11h00m, na UCDB (auditório do Bloco B), com o tema: “Um Geoparque para Mato Grosso do Sul”

Paulo Boggiani apresentará esse novo, inovador e interessante conceito, o Geoparque, criado recentemente pela UNESCO. Os geoparques criados no mundo ficam ligados através de uma rede mundial de intercâmbio.

Será apresentada a proposta de criação do Geoparque Bonito – Pantanal e ressaltada a necessidade da articulação institucional no seu processo de criação.

Foram convidados para participar representantes do IPHAN, instituição que tomou a iniciativa do processo de criação.

Atualmente encontram-se integrado no processo o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Universidades (UFMS, USP, URCA, UnB), o Governo de Estado, através da Superintendência de Turismo, e algumas Prefeituras, mas para sua criação será necessário um envolvimento maior ainda!

Para saber mais sobre o conceito de Geoparque leia a coluna de Paulo Boggiani no Portal Bonito

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Racismo presidencial

A verborragia do presidente definitivamente é ilimitada. Ao criticar os países desenvolvidos, culpando-os pela crise – com o que aliás, eu concordo – Lula disse que os problemas financeiros mundiais foram causados por “gente branca de olhos azuis”.

Literalmente teria sido esta a expressão utilizada “- A crise foi causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis, que antes pareciam saber de tudo, e, agora, demonstram não saber de nada”.

Eu sou branco e tenho olhos verdes. Será que o barbudo gordo acha que eu sou responsável? Se ele tivesse utilizado outra cor, seria acusado de racismo. Responsabilizar os brancos de olhos azuis não é racismo também? Será que Lula está tentando concorrer com o premiê italiano que disse que o presidente americano é “bronzeado”.

Alguém cole um esparadrapo na boca do presidente, por favor!

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Independência ou Morte? (2)

Está bem, o Independência tem problemas sérios. O Estado tem responsabilidade? Aparentemente não. Os negócios se complicaram em função da crise internacional e ao envolvimento do grupo em operações financeiras.

Ah, sim, nos projetos de viabilidade nem se aventou a possibilidade de que a coisa não funcionasse e o Estado concedeu a renúncia fiscal pretendida.

Ainda em Janeiro, provavelmente na tentativa de reforçar a escala do Frigorífico, a pauta fiscal foi aumentada para evitar que os melhores preços praticados nos estados vizinhos adiantasse o fechamento da empresa. Antes disso, os R$250 milhões concedidos pelo BNDES não foram suficientes para o rombo e não houve tempo hábil para receber os restantes R$200 milhões.

O problema é que os produtores ficaram absolutamente órfãos. Quem vendeu ao frigorífico obviamente está em situação delicada mas mesmo quem não o fez, tem problemas para colocar seu produto. � importante lembrar que o Independência foi o maior exportador de carne bovina do país até poucos meses atrás.

Várias questões devem ser colocadas:

1. Foi realmente uma surpresa a quebra da empresa? Não havia forma de saber o que estava acontecendo antes que o problema se instalasse com a intensidade observada?

2. Estabelecido o problema, onde estão os representantes dos pecuaristas, políticos ou da classe? Onde está a comunicação com o mercado? A transparência é essencial para transmitir alguma tranquilidade. 

3. O que será feito para evitar novos problemas? Será que os produtores vão, finalmente, parar de reclamar da “força dos frigoríficos” e entender que não podem continuar isolados – entre si e do mundo – e começar a propor linhas de ação que equilibrem a balança?

O mundo está muito diferente e não podemos imaginar que os negócios serão conduzidos como o eram há décadas. Nosso produtor rural precisa ser resgatado e instrumentalizado. O Brasil precisa de um agronegócio economicamente estável, de um ambiente de trabalho que possibilite o desenvolvimento de novas estruturas produtivas mais eficientes.

Se o Independência vai ou não renascer das cinzas é algo que não sabemos mas governo, instituições e produtores precisam se integrar com urgência num plano de resgate do mercado. E o pior é que para esses problemas, a vacina não se aplica no brete.

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Ignorância ou má fé?

Fiquei pasmo com a matéria de hoje do Jornal O Estado de MS que nos informa que o governo do estado admite “queimar” R$130 milhões para minimizar os efeitos da crise.

Inicialmente imaginei qual seria o programa de impacto que o governador estaria lançando mas, ao ler o texto, a surpresa foi substituída pela indignação. Definitivamente contam com a passividade e a falta de informação da população em geral.

Começo citando três “incorreções” (para ser educado e politicamente correto) mencionadas a respeito da arrecadação do ICMS em MS.

Segundo o texto, “o tributo rendeu R$ 370 milhões aos cofres estaduais em outubro, recuando a pouco mais de R$ 369 milhões no mês seguinte e a R$ 360 milhões em dezembro”. A tabela a seguir demonstra os valores efetivos, publicados no site da CoTePe – Comissão Técnica Permanente de Acompanhamento do ICMS – do Ministério da Fazenda.

Compare os valores. Será falta de informação? Má fé?

Compare os valores. Será falta de informação? Má fé?

 

Ora, é possível imaginar que o governador não tenha acesso a esses valores? Será que a crise internacional está sendo utilizada como forma de justificar o aumento da carga tributária? 

Mas as incoerências não terminam por aí. Na mesma página do Jornal, a reportagem informa que “o governador salientou o fato de que, pela primeira vez, a arrecadação do imposto em dezembro foi inferior a dos dois meses anteriores – o que não é aguardado diante do consumo no final do ano”. Essa é a maior bobagem. Veja o gráfico abaixo:

 

Ao contrário do que alega o governador, a arrecadação do ICMS tradicionalmente cai em Dezembro, como você pode perceber neste gráfico

Ao contrário do que alega o governador, a arrecadação do ICMS tradicionalmente cai em Dezembro, como você pode perceber neste gráfico (clique para ampliar)

 

 

Agora diga, sinceramente: Você acredita que o governador não sabia que a arrecadação cai em Dezembro? Se não sabia, deveria trocar o Secretário de Fazenda. Bem, mas o mais sério é continuarmos a ouvir nosso governador alegar que a arrecadação caiu. O gráfico a seguir foi elaborado a partir dos dados do Ministério da Fazenda, atualizados pelo IGPM (só para não alegarem o efeito inflacionário). Depois de analisá-lo, talvez caiba perguntar em que planeta estamos porque, afinal, no mundo todo a crise destruiu as arrecadações, até mesmo no Brasil o último trimestre de 2008 foi desastroso, entretanto não foi o que verificamos aqui em MS. Enquanto isso, as pequenas empresas sofrem para pagar seu ICMS “garantido” (antecipado), comprometendo seu capital de giro e a geração de empregos.

 

Valores atualizados pelo IGPM Fev/09 - em que momento houve queda de arrecadação? (clique para ampliar)

Valores atualizados pelo IGPM Fev/09 - em que momento houve queda de arrecadação? (clique para ampliar)

 

 

Para terminar, afinal, nem todo mundo gosta de gráficos como eu, eis a última constatação: a arrecadação do ICMS de Janeiro de 2009 CRESCEU em relação a Janeiro de 2008… Em valores corrigidos passou de R$382 para R$384,3 milhões. Tem povo que é cego! 

 

Olhe bem para o mês de Janeiro/09. Assustador, não é? Apesar da crise, continuamos a pagar mais impostos. (clique para ampliar)

Olhe bem para o mês de Janeiro/09. Assustador, não é? Apesar da crise, continuamos a pagar mais impostos. (clique para ampliar)

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Sarkozy em Bercy

Eu nunca imaginei que fosse mencionar um texto como esse mas sua adequação à nossa realidade é absoluta.

Trata-se do discurso de Nicolas Sarkozy, presidente da França, no estádio de Bercy. Note-se que o discurso (de 29 de abril de 2007) foi anterior à eleição, mas a linha de conduta tem sido mantida. 

Isso demonstra que às vezes o rótulo (direita, esquerda, liberal etc.), importa muito pouco. O importante é a linha de conduta, a moral. Poucas vezes vi um discurso de conteúdo tão esquerdista quanto este, começando do título. O engraçado é que critica a esquerda exatamente porque os valores originais foram soterrados pelo entulho ideológico.

Para ajudar, ele menciona a raiz da crise econômica internacional. 

Vou Reabilitar o Trabalho – Nicolas Sarkozy

“Derrotamos a frivolidade e a hipocrisia dos intelectuais progressistas. O pensamento único é daquele que sabe tudo e que condena a política enquanto a mesma é praticada.

Não vamos permitir a mercantilização de um mundo onde não há lugar para a cultura: desde 1968 não se podia falar da moral. Haviam-nos imposto o relativismo. A ideia de que tudo é igual, o verdadeiro e o falso, o belo e o feio, que o aluno vale tanto como o mestre, que não se podia dar notas para não traumatizar o mau estudante. Fizeram-nos crer que a vítima conta menos que o delinquente. Que a autoridade estava morta, que as boas maneiras haviam terminado. Que não havia nada sagrado, nada admirável.

Era o slogan de maio de 68 nas paredes de Sorbone: ’Viver sem obrigações e gozar sem trabalhar’.

Quiseram terminar com a escola de excelência e do civismo. Assassinaram os escrúpulos e a ética. Uma esquerda hipócrita que permitia indenizações milionárias aos grandes executivos e o triunfo do predador sobre o empreendedor.

Esta esquerda está na política, nos meios de comunicação, na economia. Ela tomou o gosto do poder. A crise da cultura do trabalho é uma crise moral. Vou reabilitar o trabalho.

Deixaram sem poder as forças da ordem e criaram uma frase: ‘abriu-se uma fossa entre a polícia e a juventude’. Os vândalos são bons e a polícia é má. Como se a sociedade fosse sempre culpada e o delinquente, inocente.

Defendem os serviços públicos, mas jamais usam o transporte colectivo. Amam tanto a escola pública, mas seus filhos estudam em colégios privados. Dizem adorar a periferia e jamais vivem nela. Assinam petições quando se expulsa um invasor de moradia, mas não aceitam que o mesmo se instale em sua casa. Essa esquerda que desde maio de 1968 renunciou o mérito e o esforço, que atiça o ódio contra a família, contra a sociedade e contra a República.

Isto não pode ser perpetuado num país como a França e por isso estou aqui.

Não podemos inventar impostos para estimular aquele que cobra do Estado sem trabalhar. Quero criar uma cidadania de deveres.

Primeiro os deveres, logo após os direitos.”

PS: Algum de nossos políticos teria coragem de assumir uma postura clara como esta?

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Para Pensar no fim de semana…

Dificilmente publico textos de terceiros. Quando o faço, tomo o cuidado de verificar a autoria e garantir que seja devidamente mencionada.

Neste caso, não pude verificar a autoria do trabalho mas, devido à incrível relação com os temas que temos tratado nesta semana, resolvi publica-lo assim mesmo, principalmente porque recebi várias mensagens dizendo que “não adianta tentar mudar”.

Bom fim de semana. Pense bem a respeito do conteúdo… ou não. 

Saúde Mental – Rubem Alves

Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.

Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, bastar fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito perigosa… Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental. Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas. Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.

Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente “equipamento duro”, e a outra denomina-se software, “equipamento macio”. O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito. O software é constituído por entidades ” espirituais”-símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes. Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, sendo que o programa mais importante é a linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas. Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo,é sensível às coisas que o seu software produz.

Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou. Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias. Opte por um software modesto.

Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o rock pode ser tomado à vontade. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato. Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram.

PS:N�O ASSISTA A ESTE VÍDEO se não quiser correr o risco de afetar seu hardware com sentimentos

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