Monthly Archive for setembro, 2008

Prudência e Canja de Galinha

Confesso que fiquei irritado inicialmente com a declaração de sua santidade Lula ao decretar o fim do que ele chamou de “Era dos Economistas”. Nada contra os engenheiros, que segundo ele sucederiam os profissionais da minha categoria, mas em função da estapafúrdia e pouco lisonjeira comparação que o magnânimo chefe maior da nação faz entre as duas profissões regulamentadas do mundo todo.

Precisamos, sim, de engenheiros, mas também de economistas, médicos, físicos, biólogos e todos os outros detentores do conhecimento, até de advogados (hehe. brincadeira).

Estamos assistindo de camarote à mais importante crise internacional de que se tem notícia. Não posso acreditar que nosso presidente-oitenta-por-cento-de-aprovação continue com a desfaçatez que lhe é peculiar, desdenhando a importância dos fatos.

O problema é tamanho que só hoje, até este momento, já estou na terceira entrevista falando a respeito do mesmo tema ou, basicamente, com a mesma pergunta: O QUE EU DEVO FAZER?

Resolvi escrever para ficar registrado.

Desde há muito tenho chamado a atenção para os riscos inerentes ao endividamento, a despeito do parecer contrário do ministro Mantega.

Eu sou teimoso, portanto, seguem algumas opiniões:

1. N�O SE ENDIVIDE AGORA: o congresso americano deve se sentir pressionado depois da hecatombe de ontem. A proposta de Bush deverá ser reformulada, apreciada e aprovada rapidamente, o que trará alguma tranquilidade ao mercado. Portanto, espere.

2. MAS Ã? O FIM DA LINHA: se você já está “quebrado” e precisa resolver rapidamente sua situação, tente ser o mais conservador possível. Reduza as despesas, peça dinheiro para o pai, avô, tio, cunhado (bom, aí também é demais). Evite o banco, nem pense em “factoring” ou agiotas, a menos que tenha certeza de que vai ganhar na Mega Sena na semana que vem.

3. TINHA DINHEIRO NA BOLSA (de valores): detesto concordar com a Dilma mas agora tenha calma. Ninguém perde na bolsa no longo prazo. Bom, já sei que você quer saber QUAL PRAZO? Minha resposta é: NÃ?O SEI! Aliás, ninguém sabe. E se disser que sabe, está mentindo. Exagero fora, pense no seguinte: Não acabou todo o dinheiro do mundo e aqueles que estão capitalizados neste momento, vão voltar a investir assim que a tempestade passe – ou fique mais branda. Nesse momento, os títulos que estiverem desvalorizados, serão os mais procurados, portanto, subirão rapidamente.

4. INVESTIMENTO: com crise ou sem, existem no mundo bilhões de bocas a alimentar para continuar movimentando bilhões de braços e pernas que precisam de produtos reais. Se estiver pensando em investir em alguma coisa e está desconfiado do mercado financeiro (bem vindo ao clube), pense em investimentos produtivos, ou seja, produção de bens reais.

5. E EM MATO GROSSO DO SUL?: As commodities (soja, carne etc. Veja artigo sobre este tema AQUI) que tiveram seus preços majorados enormemente no início do ano, vêm sofrendo sucessivas perdas nos preços internacionais, embora os custos dos insumos (fertilizantes entre outros), continuam altos. Como sempre, chamo a atenção para o fato de que o que gera lucro de verdade é o CONHECIMENTO, o know-how, pesquisa e desenvolvimento. A economia de MS está fortemente vinculada aos preços das commodities. A tendência, em função da falta de recursos financeiros, é que os preços não se elevem. Precisamos pensar em alternativas, em produtividade, em rentabilidade. Que tal pensar, por exemplo, em produtos orgânicos? Na produção de fertilizantes? Bom, tenho muitas sugestões…

Enfim, tenha muita, muita calma. Não gaste por conta, não se endivide. Deixe aquela TV de Plasma para depois; o carro novo, a casa…

Depois da tempestade, prepare-se para curtir a bonança…

 

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Pantanal vale US$ 112 bilhões, diz estudo

Por Claudio Angelo – Editor de Ciência (Folha Online)

Valor anual da mata em pé é 270 vezes maior do que o lucro da pecuária que a derruba, afirma cientista da Embrapa

Quanto vale um bioma? A pergunta pode parecer maluca, mas, se o bioma em questão for o Pantanal, ela já pode ser respondida: US$ 112 bilhões por ano, no mínimo. Várias ordens de grandeza mais que o máximo de US$ 414 milhões anuais que a devastação do local gera.

O cálculo foi feito por um pesquisador da Embrapa Pantanal, em Corumbá, e põe pela primeira vez em perspectiva o valor dos serviços ambientais prestados pela maior planície alagável fluvial do mundo, comparados com aquilo que é gerado pela pecuária, a mais rentável atividade econômica praticada na região.

Segundo o oceanógrafo e economista gaúcho André Steffens Moraes, “perdido no Pantanal desde 1989″, um hectare preservado do bioma que detém a maior concentração de fauna das Américas vale entre US$ 8.100 e US$ 17.500 por ano. A conta é detalhada em sua tese de doutorado, recém-defendida na Universidade Federal de Pernambuco e disponível para download (Clique aqui: andresteffens).

Nela, Moraes inclui valores potenciais de coisas como madeira, produtos florestais não-madeireiros e ecoturismo. Mas também de coisas que não estão nem podem ser colocadas facilmente no mercado, como o valor da polinização feita por aves e insetos, o controle de erosão e, principalmente, a oferta e regulação de água – produtos e serviços que são perdidos quando a vegetação tomba. “Eu analisei quanto a sociedade perde quando se desmata”, disse o pesquisador.

Estilo Zé Leôncio

Com terras que ficam alagadas até 8 meses por ano, impróprias para a agricultura e abundantes em gramíneas, o Pantanal parece combinar com a pecuária, única atividade -além do turismo- rentável ali. Hoje há 5,3 milhões de cabeças no bioma, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A pecuária também parece combinar com o Pantanal: como o capim faz parte do ecossistema, não é preciso recorrer ao desmatamento para criar gado. Há no bioma uma coexistência pacífica única no Brasil entre gado e fauna, que acaba tornando os fazendeiros da região conservacionistas, no melhor estilo Zé Leôncio (o fazendeiro consciencioso da novela “Pantanal”, interpretado pelo ator Cláudio Marzo). No jargão dos economistas, esse pecuaristas são considerados “satisficers” (saciadores) e não “maximizers” (maximizadores).

Segundo Moraes, o gado é de certa forma bom para a fauna: com carne de sobra, a pressão de caça diminui.

Desmate na cordilheira

O problema é que viver como Zé Leôncio não é para quem está interessado em grandes lucros: “A pecuária é extensiva, então a rentabilidade é baixa”, afirmou Moraes à Folha. Para ser exato, cada hectare de boi em pasto nativo rende US$ 12,5 ao ano para os produtores.

E é claro que pouca gente quer ser Zé Leôncio hoje em dia. A partir dos anos 1970, um aumento na demanda por carne associado a uma inundação no rio Taquari que diminuiu a área de pasto natural fez os fazendeiros começarem a derrubar as matas nas chamadas cordilheiras, as áreas de floresta que ficam secas o ano todo.

Sem a dor-de-cabeça de precisar tirar o gado todo ano quando o pasto alaga – que reduz o peso dos animais – quem cria gado nas cordilheiras ganha mais dinheiro: US$ 28 por hectare ao ano.

Isso obviamente teve impacto direto sobre o bioma. Até 1991, apenas 545 mil hectares de mata nativa pantaneira haviam tombado. Em 2000 já era 1,2 milhão de hectares, ou 30% da área do Pantanal.

“O pecuarista não tem alternativa produtiva. O mercado o pressiona para desmatar e pôr pasto”, diz Moraes. “Quando ele faz isso, as ONGs e a sociedade criticam, mas eu como pecuarista faria a mesma coisa.”

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Dow Jones despenca mais de 500 pontos

Bom, por lá a coisa já ficou séria.
Veja o gráfico de uma das principais bolsas americanas. Já caiu 500 pontos hoje:

Aqui o dólar sobe mais de 6% (vai a R$ 1,976 na compra e a R$ 1,978 na venda).

A Bolsa de Valores de São Paulo (BM&F-Bovespa) sofreu forte queda. �s 14h49, registrou queda de 10,16%. O resultado fez com que o pregão fosse suspenso por 30 minutos.

Pelo jeito o Mantega não estava certo. Infelizmente.

16:00 hs – (15:00 CGR) – BOVESPA em queda de 12,25% a 44.563 pontos.

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Câmara norte-americana derruba proposta de socorro do governo

Provavelmente o projeto será reapresentado, no entanto, hoje não foram atingidos os 218 votos necessários para aprovar o pacote de socorro de US$700 bilhões que o governo americano propôs para tentar minimizar a crise no sistema financeiro.

O mundo todo estava de olho e, com certeza, o maremoto financeiro chegará aqui nos próximos minutos.

Prepare-se. Segure na cadeira e torça para o Mantega estar certo e eu, completamente errado.

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ONGs indígenas – por Cláudio Humberto

Cláudio Humberto de hoje, 29/09/08

29/09/2008 – ONG indígena dá tombo de R$ 52 milhões

A ONG Conselho Indígena de Roraima (Cir), controlada pelo índio macuxi Jacir José de Souza, tomou quase R$ 52 milhões da Funasa e não presta contas. Em março de 2002, foram R$ 14,8 milhões para projetos de assistência a índios, mas não prestou contas na data devida, maio de 2004. Em vez disso, a Cir arrancou em julho de 2004 mais de R$ 37 milhões e não prestou contas, como deveria, em junho passado.

29/09/2008 – Companhias

Jacir é â??parceiroâ? das ONGs inglesas Survival e Cafod, que financiam freqüentes viagens do cacique à Europa para ele falar mal do Brasil.

29/09/2008 – Muito estranho

A ONG inglesa Cafod fez do Conselho Indígena de Roraima a ponta-de-lança na defesa da demarcação contínua na Serra do Sol.
  
29/09/2008 – E nós, ó…

Em seu blog, o ex-presidente da Funai Mércio Gomes â?? aquele que só vivia no exterior â?? chamou Jacir de Souza de â??grande líder macuxiâ?.

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Dominó gigante (tem gente que não acredita)

Tomara que o Presidente Lula e o Ministro Mantega leiam este texto e comecem a pensar um pouco antes de abrir a boca outra vez.

Veja algumas matérias em jornais de hoje:

1. O governo britânico confirmou a nacionalização do banco Bradford & Bingley e a venda de parte de seu negócio ao espanhol Santander. A nacionalização foi oficializada nesta segunda-feira, após um fim de semana de negociações e foi fechada como forma de socorrer a instituição que está em dificuldades financeiras.

2. Os três países do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo) vão injetar 11,2 bilhões de euros no banco Fortis, para tentar evitar a quebra da instituição. Só para esclarecer, o Fortis é dono do ABN/AMRO Bank, que por sua vez é dono do Banco Real.

3. O HRE (Hypo Real Estate), Banco Alemão especializado em hipotecas imobiliárias, está à beira da quebra, afirma o jornal “Financial Times Deutschland” em sua edição de segunda-feira. Bancos privados alemães tentam “freneticamente”, há vários dias, encontrar uma solução para salvar a entidade, afetada de forma severa pela crise dos créditos hipotecários de risco nos Estados Unidos (os “subprimes”), diz o jornal.

4. A Embraer se uniu na noite de sexta-feira ao grupo de empresas que veio a mercado para acalmar seus acionistas e informar que não possui operações alavancadas em derivativos de câmbio.

5. O orçamento do Ministério da Educação (MEC) deverá ter um acréscimo de quase R$ 10 bilhões no próximo ano, mas deverá cortar parte das verbas de três programas de grande apelo social em 2009. Os recursos adicionais deverão ser utilizados para praticamente triplicar os recursos destinados à publicidade no ano que vem.

Embora tenhamos toda a disposição do mundo em admitir que a economia do Brasil tem andado bem, é inevitável admitir que não podemos continuar desconsiderando o que acontece no restante do mundo.

� pueril (oops, se o presidente vai ler é melhor traduzir: INFANTIL, presidente) considerar que mesmo sendo periférica, a economia brasileira não vai sofrer o impacto dessa crise.

Infelizmente temos que torcer para que o pacote de socorro do governo americano dê muito certo. Mais do que eles mesmo acreditam.

Por outro lado, considerar sequer, a possibilidade de ampliar dessa forma a verba de publicidade do Ministério da Educação, apesar de toda a necessidade de investimento na área, beira a estultice ou desídia (ooops…).

 

PS – Saiu agorinha quentinha no NYTimes – Citigroup chegou a um acordo para comprar as operações bancárias do grupo Wachovia. Só mais um capítulo da crise que, segundo o Ministro, não vai chegar aqui.

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Lançamento do “Bolsa Mordaça”

Alguém, por favor, poderia sugerir aos altos escalões brasileiros a criação do Bolsa Mordaça?

Explico: Com um preço módico a partir de R$23, todos os integrantes do alto escalão seriam obrigados a usar a mordaça durante todas as aparições públicas!

Penso que ganharíamos muito ao subsidiar esse importante acessório e evitar ilações como as que temos ouvido.

Não bastasse o Ministro Mantega dizer que o Brasil é imune à crise financeira, agora a Ministra-Candidata Dilma Roussef chegou à conclusão de que os recursos do Pré-Sal ajudarão o Brasil a “erradicar a pobreza em menos de 18 anos“.

� impressionante a visão de futuro de nossa Ministra, não é?

1. ela já sabe quanto vai custar e render a exploração do tal do Pré-Sal que, segundo a própria Petrobrás é, pouco mais do que uma perspectiva.

2. ela já sabe quanto vai valer o petróleo daqui a 10, 15, 18 anos!!!

3. ela deve saber também que vão naufragar todos os planos mundiais de todas as montadoras para substituir o combustível dos veículos por fontes renováveis.

4. ela já sabe que o Brasil vai mesmo vender nosso petróleo (afinal, isso vai acabar com a pobreza), mesmo que isso signifique ter que importar petróleo depois.

5. ela já sabe que a Petrobrás vai conseguir reduzir o tempo previsto para operação das plataformas, vez que sua operação está prevista para daqui a 17 anos…

Dilma não é só uma Ministra. � uma vidente inacreditavelmente precisa, daquelas de colocar Mãe Dinah no chinelo.

Bem, senhora ministra, não dá para esperar os resultados do pré-sal. Que tal fazermos alguma coisa antes disso para erradicar a pobreza?

Claro que não dá para ficar dando aumento de 100% para funcionalismo e engordando nosso paquidérmico Estado mas talvez, dê para investir um pouco mais em recursos renováveis, sustentabilidade, infra-estrutura…

Bom fim de semana!

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Lucro maior com alimentos orgânicos

Fernanda Couzemenco – 23 de Setembro de 2008 (publicado em “O Eco”)

Não tem pra quem quer. Com exceção de alguns países da União Européia, que apresentaram redução no número de unidades de produção orgânica certificada, a produção de orgânicos, certificados ou não, cresce continuamente. A procura, no entanto, continua maior do que a oferta.

Muito maior, aliás. Tanto que, como avalia Ming Liu, gerente do Projeto Organics Brasil, o mercado internacional de orgânicos, com cifras estimadas em 40 bilhões de dólares anuais, continua um nicho em termos de produção. â??Mas considerando a demanda mundial, já é um main stream, um segmento de mercadoâ?, compara.

Nos Estados Unidos e na Europa, dois dos principais consumidores globais (o terceiro é o Japão), responsáveis pela quase totalidade das exportações brasileiras, o consumo de orgânicos não passa de 2,5% e 2% do volume total, respectivamente. Mas a tendência de manutenção do crescimento anual, entre 20% (alimentos in natura) e 50% (algodão, cosméticos e produtos para animais de estimação), considerando os orgânicos e naturais, faz deste um dos segmentos mais promissores do mundo.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) compartilha deste otimismo. O estudo Cadeia Produtiva de Produtos Orgânicos, publicado em 2007 (um dos raros estudos oficiais na área, que ainda amarga uma carência incrível de informação), calcula que o número de agricultores orgânicos em território nacional não chega a 1% do total e ocupa apenas 0,25% da área agriculturável. â??Esses indicadores modestos revelam o potencial de expansão deste mercado, em que a demanda é superior à ofertaâ?, aponta o estudo.

Produção nacional

O Brasil já é o maior consumidor de orgânicos da América do Sul e é considerado detentor do maior potencial de exportação no mundo, segundo análise do Instituto Biodinâmico, um dos maiores certificadores de orgânicos do país. Por enquanto, perto de 70% da produção brasileira, em valor, é exportada. Estima-se que existam um milhão de hectares de lavouras certificadas, onde trabalham oito mil agricultores.

No Brasil, o pioneirismo é dos pequenos agricultores familiares, que começaram a aderir à então chamada Agricultura Alternativa no início dos anos 1980, quando produzir sem venenos parecia apenas uma ingênua utopia. â??Era romantismo, era coisa de maluco, dos hippiesâ?, lembra a agricultora Erenilda Ferreira Guio, presidente da Vero Sapore â?? Associação de Produtores Agroecológicos e Orgânicos de Iconha, no sul do Espírito Santo. â??Hoje as pessoas, até da própria comunidade aqui, estão vendo com outros olhos, que o futuro é esseâ?, observa.

Os pequenos ainda são a maioria, cerca de 90% do total, e a adesão continua se dando principalmente a partir do contato com uma organização ou movimento da sociedade civil, os mesmos â??malucosâ? de 30 anos atrás. Geralmente a conversão não é individual, acontece com um grupo, organizado em uma associação ou cooperativa. A comercialização, via de regra, se dá nas feiras livres, especializadas ou não.

Uma vertente ainda mais ousada entre os pequenos produtores agroecológicos comercializa seus produtos sem a necessidade dos selos das certificadoras, antecipando dois mecanismos criados recentemente pelo Decreto 6.323/2007, que regulamenta a comercialização de orgânicos no país. Sem ter de pagar pelos altos custos dos selos, os agricultores conseguem atingir preços que cabem no bolso da maioria das famílias.

O associativismo e o atendimento às populações menos economicamente favorecidas reflete um diferencial fundamental da agroecologia verde-amarela. Aqui, muito mais do que uma forma de produzir alimentos sem agrotóxicos, ela agrega compromisso com a segurança alimentar, o fortalecimento da agricultura familiar, a Reforma Agrária e outras lutas sociais, como a igualdade entre gêneros e etnias, a educação e a habitação camponesa dignas. Diferente da Europa, onde o objetivo é apenas atender aos consumidores de alta renda, que buscam uma alimentação mais saudável e que agrida menos o meio ambiente.

Do pequeno ao grande

Hoje balzaquiana, a agricultura orgânica tupiniquim começa a agregar também uma linha mais mercadológica, típica do Hemisfério Norte. Os protagonistas são os médios e grandes produtores, que buscam atender exatamente ao mercado externo e, internamente, às grandes redes de supermercados.

Engana-se, no entanto, quem pensa que não vender em Dólar, Euro ou cartão de crédito torna a Agricultura Orgânica menos vantajosa que a convencional. Pergunte a qualquer pequeno agricultor orgânico se ele está mais satisfeito financeiramente. Em 100% das vezes, a resposta será sim. Um exemplo vem de Santa Maria de Jetibá, município que mais produz orgânicos no Espírito Santo, estado na quarta posição do ranking nacional de produtores. Avelino Schilieve conta que sua primeira safra de morangos orgânicos lhe rendeu quase R$ 2 mil de lucro, enquanto as anteriores, convencionais, sempre lhe davam prejuízo.

Estudo apresentado no último Congresso Brasileiro de Agroecologia (2007) pelo engenheiro agrônomo João Antonio Motta Neto mostrou que, das 12 culturas analisadas (abóbora, batata-baroa, batata-doce, batata-inglesa, cenoura, couve-flor, inhame, morango, pimentão, quiabo, repolho e tomate) entre os anos 2001 e 2004 na região serrana capixaba, as únicas exceções foram o morango, entre 2001 e 2003, e a couve-flor em 2003. Todas as demais apresentaram maior lucratividade ao produtor orgânico que ao convencional. Os orgânicos também mantiveram preços estáveis durante o ano, ao contrário dos convencionais, que sofreram oscilações mensais. â??Isso permite ao agricultor planejar melhor a sua produção, mesmo que em alguma época do ano seja aparentemente mais interessante vender os seus produtos como convencionaisâ?, observa João.

As vertentes orgânica e ecológica, que são a melhor solução para a saúde e à conservação da biodiversidade â?? ao lado agricultura natural, biodinâmica e similares â?? revelam-se cada vez mais também um excelente negócio para quem busca enveredar por um mercado em franca expansão, trabalhando com um produto diferenciado, com alto valor agregado e, para usar uma palavra da moda, â??sustentávelâ?.

E por falar em sustentabilidade, os orgânicos dão banho também em outro assunto da moda: eficiência energética. Jacimar Luís de Souza, pesquisador em Agroecologia pelo Incaper â?? Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (ES), um dos maiores especialistas do país, chama atenção para os números.

Em um estudo realizado com dez culturas (abóbora, alho, batata, batata-baroa, batata-doce, cenoura, couve-flor, repolho, taro e tomate) produzidas na região centro-serrana do Espírito Santo, entre 1991 e 2000, o balanço energético (quantidade de energia produzida por um sistema dividido pela quantidade de energia consumida durante a produção) dos orgânicos foi, na média, de 2,78, enquanto que o dos convencionais foi de 1,93. Ou seja, para produzir 1 kcal de alimento, o sistema orgânico consome apenas 0,36 kcal, enquanto o convencional precisa de 0,52. Considerando porém a eficiência energética da produção orgânica apenas até a fase de colheita (desconsiderando embalagem e frete), o balanço aumenta de 2,78 para 4,66 (0,21 kcal consumida pra cada 1 kcal produzida).

O estudo menciona, ainda, que o Brasil gasta em média 2,6 Kcal para produzir 1 kcal de alimento (balanço de 0,38). � muita energia gasta. Mas nos Estados Unidos, são necessários 9,0 Kcal e no Japão 12,0 Kcal (balanços energéticos de apenas 0,11 e 0,08 respectivamente!).

Petróleo e desinformação

Jacimar também alerta que toda esta energia, em sua maioria, é baseada em combustíveis fósseis não-renováveis, ou â??produção de alimentos a qualquer custoâ?. Ao contrário, â??a expansão das áreas de agricultura orgânica provocará uma elevação do estoque de carbono nos solos, capturando gás carbônico e minimizando as emissões de gases de efeito estufa, reduzindo o aquecimento global do planetaâ?, aconselha.

O uso excessivo do petróleo e os perigos dos agrotóxicos utilizados na agricultura industrial foi amplamente denunciado pela primeira vez na década de 1960 pela jornalista Rachel Carson, em seu livro clássico Primavera Silenciosa. Até hoje, no entanto, a população em geral tem muito menos informação do que deveria. Ã? muito pouco conhecida, por exemplo, a origem bélica dos agrotóxicos, o apoio que a chamada Revolução Verde recebeu de governos e de instituições internacionais como a FAO â?? Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, ou curiosidades como o fato de a criação do DDT, um dos mais terríveis agrotóxicos já sintetizados, ter rendido ao químico suíço Paul Muller o Prêmio Nobel da Paz em 1948.

� subestimada também a superioridade dos orgânicos quanto ao sabor e o valor nutritivo. Sim, porque além de não conterem substâncias tóxicas e cancerígenas, os orgânicos têm mais nutrientes e mais sabor. Em média, contêm 29,3% mais Magnésio, 27% mais Vitamina C, 21% mais Ferro, 13,6% mais Fósforo, 26% mais Cálcio, 11% mais Cobre, 42% mais Manganês, 9% mais Potássio e 15% menos nitratos. Culturas orgânicas como espinafre, alface, repolho e batatas apresentam uma superioridade nutricional ainda maior.

A desinformação é tanta que, seja nos relatórios da FAO ou nas atas de reuniões dos Conselhos Territoriais do Mapa, a divulgação junto ao consumidor é apontada como uma das prioridades para o fortalecimento do setor, ao lado de incentivo a pesquisas científicas, assistência e extensão rural especializada e acesso a crédito.

A visão é de que informação é fundamental pra ajudar à massa de consumidores brasileiros a mudarem seus hábitos e escolherem entre os dois caminhos hoje possíveis pra entrar no time dos orgânicos: investir tempo ou dinheiro. No supermercado é rápido e caro. Nas feiras é barato, mas precisa acordar cedo e bater perna. Ã? isso ou continuar fazendo de conta que os agrotóxicos são mesmo um mal necessário e que esse negócio de orgânicos e ecológicos é só pra rico e gringo, coisa de maluco, de hippie…

Fernanda Couzemenco é jornalista no Espírito Santo.

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O Brasil está blindado?

Reinaldo Cafeo – 26/09/2008

A crise americana se alastra pelo mundo todo e evidentemente que atinge mais fortemente países considerados desprotegidos no que se refere à condução da política econômica.

A pergunta mais ouvida no caso brasileiro é: o Brasil será afetado pela crise?

A resposta é uma só: já foi afetado. Isso nos remete a segunda pergunta: o Brasil está blindado? A resposta é: depende do ponto de vista da análise.

Algumas variáveis dão segurança ao país. Reservas cambiais confortáveis para o padrão histórico brasileiro. Juros elevados Risco país em níveis aceitáveis. Democracia em consolidação. Inflação sob controle rigoroso da autoridade monetária. Câmbio flexível. Superávits comerciais. Relação PIB/dívida sob controle.

Essas entre outras variáveis indicam que o país está muito mais protegido para enfrentar as conseqüências da crise.

Por outro lado, o modelo econômico brasileiro ainda é frágil, em função de não se ter avançado nas reformas estruturais que dariam a sustentação ao crescimento econômico brasileiro. Em outras palavras: o paciente chamado Brasil administra bem remédios para seu controle diário, entretanto, não possui uma boa saúde que permita abandonar de vez esses remédios.

Quando o quadro é esse o melhor a fazer é agir preventivamente, e neste particular, o Banco Central brasileiro agiu rápido, ampliando a liquidez do mercado.

Mas como colocado, o Brasil já foi afetado pela crise. Pode até não sentir fortemente, mas já há mudanças importantes no mercado. Por exemplo: o crédito já está mais escasso. Os bancos já estão mais seletivos. O BNDES já fechou algumas portas de financiamento a longo prazo. Alguns setores já estão revendo seus planos de crescimento.

Assim podemos concluir: não passaremos ilesos pela crise americana, mas com velocidade nas decisões, poderemos sair dela sem pagar um preço muito elevado, entendendo este preço como redução forte do nível de atividade econômica e com ela toda a conseqüência quanto à geração de emprego e renda.

 

Reinaldo Cafeo – economista, professor, pós-graduado em Engenharia Econômica, mestre em Comunicação.

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Claudio Humberto: Índios criam ONGs e faturam alto

Índios de diversos estados, e até do DF, criaram Organizações Não-Governamentais para arrancar dinheiro do governo: documento em poder desta coluna relaciona ONGs inadimplentes há anos, dirigidas por lideranças indígenas, como a Federação do Rio Negro (Foirn), que desde 2002 tomou quase R$ 40 milhões e ainda não prestou contas da grana. A média de repasse é de R$ 5 milhões por ONG.

Negócio antigo
Há ONGs inadimplentes com o governo desde 2001, como a Organização Torü Maâ??ü, do Amazonas, que recebeu R$ 5,13 milhões.

Coitadinhos
A Constituição brasileira prevê que índios são inimputáveis. Resta saber se eles também estão imunes a processos por desvio de verba pública.

Ligações:

IDBrasil
Instituto Socioambiental
Brasil de Fato

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