Mudando de casa

Caro eventual leitor,

Os problemas com este domínio foram tantos que mudei para outro bem melhorado.

Na medida do possível estou escrevendo novos textos e migrando o conteúdo deste local para o novo, portanto, em algum tempo mais farei o redirecionamento para lá.

Enquanto isso, se quiser me dar o prazer de sua visita, vá até minha casa nova.

Obrigado

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Oposição: entre a gestão e a ideologia

por Mara Kramer

Torna-se cada dia mais evidente, após os oito anos nos quais a situação ocupou todos os espaços do campo político no Brasil, que o PSDB contém um impedimento congênito de atuar como partido de oposição. Trata-se de uma questão instigante, considerando que no mundo político de uma democracia é capital que os partidos estejam preparados para viver suas duas possíveis realidades – situação e oposição – as quais são necessariamente transitórias e antagônicas. Entretanto, observa-se que o PSDB mostra-se incapaz de atuar como partido de oposição, e embora muito se tenha especulado sobre as razões desta atitude, elas se mantém nebulosas. Estas questões seguem presentes, mas por ora, proponho apenas uma aproximação da questão central, reflexionando sobre a importância do discurso ideológico, ou de sua ausência, na última eleição presidencial.

Após o final das eleições, e mesmo durante, muitos artigos difundidos pela imprensa criticavam a ausência na disputa do debate político, ou seja, a discussão sobre o suporte teórico, as ideologias dos partidos em disputa. Neste momento, é justo fazer-se uma ressalva a Plínio Arruda do PSOL, quem mesmo apresentando uma plataforma radical, não hesitou em esclarecê-la e defendê-la. Concentremo-nos, porém naqueles com reais condições de vencer o pleito, os candidatos do PSDB e do PT.

As bases de construção da candidatura de Dilma Rousseff apóiam-se na completa absorção de sua figura pelo “mito” Lula. Ambos constituiriam uma “unidade” não homogênea, na qual Lula, o todo-poderoso, dividiria sua carga de significados com Dilma, pouco conhecida, sobretudo da maioria, e, portanto, isenta de uma imagem própria. Neste sentido, Rousseff é respaldada na campanha, não apenas pela popularidade de Lula, mas pelo suporte ideológico do PT e do “lulismo”.  Ambas as posturas são simultaneamente convergentes e contraditórias, pois o lulismo é a forma de governar adotada por Lula produto da impossibilidade de executar na integra o ideário do PT. No exercício de seus mandatos, e até para chegar a eles, Lula foi obrigado a fazer concessões, muitas opostas ao plano original do partido, gerando um modelo misto singular, entre a esquerda radical e a social-democracia, que leva seu nome.

Na prática Lula tentou aliar seu pragmatismo, a manutenção da política macroeconômica do governo anterior, a ausência de pudor ao cooptar com representantes da direita tradicional e do mundo empresarial, com a política petista, cujas propostas são o banimento de todo o estabelecido. Desta permaneceu pouco mais que o apoio às antigas lutas como MST, o sindicalismo, o aparelhamento do Estado, e a sombra do PNDH-3.

Tal modelo misto resultou em um governo de incoerências, soluções improvisadas, imediatistas, da ausência de critérios morais, narrado pelas falácias de um discurso espetaculoso.

Entretanto, a habilidade política de Lula colocou a realidade em segundo plano, e alavancou ao protagonismo a idéia da justiça social, da luta de classes entre ricos e pobres, nordestinos e sulistas, colocando-se como o redentor dos desamparados. Trata-se de uma plataforma histórica da esquerda/PT, agora executada no estilo “lulista”.

Não menosprezando as conseqüências da expansão econômica do país, claro fruto da continuidade da política macroeconômica e das estruturas institucionais estabelecidas por FHC, sobre as quais Lula tem poucos méritos, é o discurso ideológico que legitima seu governo assim como sua continuidade. A idéia de um Brasil mais justo, com menor desigualdade, com oportunidades para todos presente nos corações e mentes de uma multidão de brasileiros, sobretudo os que sofrem o drama social, esta impregnada da figura de Lula. O presidente efetivamente pouco fez para possibilitar melhor qualidade de vida a todos, mas soube trabalhar e valorizar estas idéias.

Em oposição a Lula e sua candidata está José Serra, um político virtuoso, excelente administrador público, que traz no currículo diversas obras no campo da saúde, educação, meio-ambiente, infraestrutura urbana, etc. Homem de reputação ilibada, com quase trinta anos de vida pública, cujos próprios adversários reconhecem ser mais bem preparado. Sua campanha foi baseada exatamente nesta história de obras, honestidade, e promessas cumpridas. Sua capacidade de gestão, “aquele que sabe como se faz” era o grande trunfo dos partidos de oposição aliados sob o lema “O Brasil pode mais”.

Embora esta engenharia pareça coerente observa-se agora, devido o distanciamento temporal, que a estratégia adotada rejeitava deste sua gênese o confronto político, contendo desde aí as sementes de seu fracasso. O discurso explicito e implícito inerente à fórmula de apresentar um candidato idôneo, com capacidade reconhecida frente à inexperiente e quase desconhecida Dilma, é tornar o primeiro o herdeiro legitimo das atribuições de dar seguimento a expansão econômica que vive o país. A mensagem de continuidade esta expressa já no slogan, e é reforçada pela negação do governo de FHC, pela postura de Serra frente a Lula, e na presença desse, mesmo que fugaz, na propaganda da oposição. O slogan difundido não propõe mudança ou critica, ao contrario, reconhece como positivo o que foi feito, e o valida como estágio a partir do qual se deve avançar.

Ao analisar a prioridade atribuída à imagem de continuidade no discurso da oposição verifica-se que a estratégia responde a proposições claras:

  1. explorar a indiscutível capacidade de gestão pública de Serra;
  2. abster-se da confrontação com um governo cujo presidente detém alta aprovação popular;
  3. desviar-se da dificuldade crônica do PSDB de exercer como partido de oposição.

Neste sentido, a campanha presidencial de 2010 foi o corolário de oito anos nos quais PSDB mostrou-se incompetente como partido de oposição, criando um vazio político na democracia brasileira.

A partir da decisão de não fazer oposição tomada por Serra e seus assessores a campanha assume um papel paradoxal, que renega a lógica da ciência política de um regime democrático, onde a oposição se apresenta como continuidade da situação. Ambos, Serra e Dilma, se propõem a dar seguimento ao governo Lula, sendo que a oposição afirma ter o melhor candidato. O tema central do debate nestas circunstâncias passa a ser a capacidade de gestão dos candidatos, conseqüentemente, a discussão política, ou confronto ideológico, perde espaço.

A inexistência do debate político na campanha favorece ao PT. Embora sua candidata não seja carismática, eloqüente, ou contenha uma carga simbólica importante, tem atrás de si um discurso ideológico histórico e amplamente difundido, apesar de não passar de discurso.

No que tange a Serra, a situação é inversa. O PSDB é um partido social-democrata, e portanto contém bases intelectuais definidas, mas quantos de nós sabem o que é, quais são os princípios, como funciona uma social-democracia.

Segundo o Instituto Teotônio Vilela, a “social-democracia propõe uma sociedade em que os ideais da igualdade e da justiça social convivam com a preservação das liberdades democráticas e individuais, no contexto de uma economia de mercado”. É contrária a economia estatizada assim como rejeita a soberania do mercado.

As campanhas são fundamentais na consolidação e difusão das bases ideológicas dos partidos, pois são elas que definirão as políticas sociais, econômicas e culturais. A ideologia é a visão de mundo que rege as ações e relações no mundo político, assim como as propostas de construção do futuro. É com a ideologia que nos identificamos, é por ela que nos apaixonamos, não pela aridez dos números. Serra perdeu uma grande oportunidade de consolidar e difundir uma ideologia opositora, optou por priorizar a gestão, entretanto, na política, gestão sem ideologia não funciona.

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O inescapável balanço

Por menos que goste dos efeitos, a idéia de dividir o tempo em dias, semanas, meses e anos, nos obriga a avaliar resultados, quer pessoais, quer coletivos. O tal calendário gregoriano de 2010 está no fim e do ponto de vista do cenário econômico, tivemos erros e acertos importantes.

Primeiro é preciso reconhecer que aprendemos as lições das crises da Ásia (97) e da Rússia (98). Naqueles momentos a economia brasileira estava se estruturando de um longo período hiperinflacionário e sentimos fortemente os impactos de crises que não estavam diretamente ligadas ao país.

Não quero ficar falando em economês mas o fato é que a constatamos que quase o mundo todo “atolou” em 2010 e o Brasil conseguiu avançar um pouco. Menos que China e Índia, é verdade, mas avançamos.

Costuma-se dizer que a economia responde como um transatlântico, de maneira lenta. Estamos hoje na direção que foi estabelecida na construção do Real. Nesse aspecto, o desenvolvimento vertiginoso das telecomunicações é o melhor exemplo do que acontece quando o Estado age como vetor de desenvolvimento e não tenta extrapolar suas funções.

O resultado da resposta rápida do país à crise pode ser sentido no nível do emprego, no crescimento do PIB (enquanto economias muito fortes tiveram desempenho negativo) e, evidentemente, nas eleições.

Só que o mundo continua andando. A menos que acreditemos no seu fim em 21 de Dezembro de 2012, precisamos acordar desse torpor lulístico do “nunca antes na história desse país”.

O próximo governo está atrasadíssimo em relação a mudanças essenciais na condução da economia porque, a julgar pelo discurso, continua sentado nos louros do passado.

A inflação está se desgarrando porque Lula conseguiu incutir na cabeça do brasileiro que todos precisam gastar. Já basta! Dilma precisa dizer que o brasileiro precisa INVESTIR. Em produção, em educação, em infra-estrutura, em bens de produção…

Nossas taxas de juros são insuportáveis mas continuam sendo absorvidas pela sociedade. Em favor de quem? Não é só do sistema bancário porque, no final das contas, quem sustenta essa situação é a gastança desenfreada do próprio governo, que não quer pensar em eficácia, mas em poder político.

Imaginar que os detentores do poder pensem em sustentabilidade, portanto, seria quase pueril.

No balanço de 2010 o que ficou foi, portanto, a constatação de que tínhamos aprendido e esquecemos de novo.

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O crime de salvar uma vida – Carlos Brickmann

Outro texto do magistral Carlos Brickmann. Pare e pense respeito, por favor.

O crime de salvar uma vida

Diz a Bíblia: “Não fique inerte perante o sangue do próximo”. O Talmud, compilação das leis judaicas e de suas interpretações, diz que quem salva uma vida salva a Humanidade. No Brasil, um laboratório está sendo processado por uma agência federal pelo crime de colaborar, de graça, para salvar uma vida.

A história inacreditável do processo da Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, contra o Laboratório Baldacci, de São Paulo, começou há três anos. Victor, filho recém-nascido de Bianca Calumby, tem uma doença rara: para viver, precisa de um caríssimo aminoácido, a citrulina, que lhe permite aceitar alimentação. O Laboratório Baldacci, procurado, doou três quilos do aminoácido, que garantiram a vida de Victor até o início deste ano. O Baldacci doou então mais dois quilos – tudo documentado, com pedido médico, doação formal.

A Anvisa, alegando que o Baldacci tinha autorização para usar o aminoácido como matéria-prima, mas não para doá-lo, autuou o laboratório. “Nunca pensei que pudéssemos ser punidos por querer socorrer uma criança”, diz, com toda a razão, Ronaldo Abbud, diretor do Laboratório Baldacci. A mãe de Victor completa: “É questão de formalismo cego. Sem o remédio, o garoto teria morrido”.

O laboratório fala pouco sobre o caso: pode sofrer retaliações e talvez até perder o certificado de boas práticas farmacêuticas, o que o tiraria fora do mercado. Mas o Baldacci pretende continuar (gratuitamente) cumprindo sua missão: ajudando a salvar vidas. Já a Anvisa prefere cuidar dos formulários e não de vidas.

As dúvidas, as dúvidas

Caso a Anvisa tenha êxito e impeça o Laboratório Baldacci de doar a substância que permite a sobrevivência de Victor, que acontecerá?

1 – Abre-se então um rigoroso inquérito caso o menino morra?
2 – O Governo passa a fornecer o remédio que já disse que não tem?
3 – A família do menino que se vire, que a Anvisa não tem nada com isso?

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Juros altos: efeitos colaterais da gastança federal

Era mais que necessário que o BACEN tomasse medidas urgentes, mas não passa a ser menos complicado o problema gerado pelos altos juros praticados no Brasil.

Hoje, 3 de Dezembro, o Banco Central publicou uma série de medidas cujo objetivo primeiro é  reduzir a massa monetária em circulação, que em economês se conhece como “enxugar a liquidez do mercado”.

Evidentemente, como qualquer outro bem, o dinheiro obedece à lei da oferta e demanda, ou seja, da mesma forma que a carne ou o chocolate, fica mais caro à medida que é mais procurado e está menos disponível.

O “custo” do dinheiro é o que conhecemos como juros, portanto, será inevitável ocorrer um aumento das taxas de juros.

Como eu vivo defendendo a poupança, isso só faz melhorar as condições para quem consegue planejar suas compras e, por conseqüência, poupar antes para comprar à vista depois, portanto, até aí, tudo bem.

O problema é que essa necessidade acaba sendo um efeito colateral da política de gastos sem controle do governo federal e traz reflexos diretos e nefastos sobre a atividade econômica e, em conseqüência, no nível de emprego e desenvolvimento das empresas.

Não é uma crítica infundada. Ao contrário é bem simples de demonstrar.

O governo gasta muito – e tem gasto mais a cada mês. Até aí, nenhuma novidade. Só que tem gasto muito mais do que arrecada, apesar do crescimento constante da arrecadação. Como é natural e conhecido de qualquer pessoa, se gastamos mais do que ganhamos, em algum momento vamos precisar reduzir os gastos ou tomar dinheiro emprestado.

Como não poderia deixar de ser, o governo usa a pior opção: emite títulos da dívida pública e os coloca à venda. Quem compra, sabe que ao vencimento, receberá seu dinheiro acrescido de juros. Esses juros são os que chamamos de “básicos” ou taxa SELIC. Quanto mais dinheiro o governo precisa, mais caro está disposto a pagar, aumentando a taxa SELIC.

Como o Brasil é o país com juros básicos mais altos do mundo, investidores do mundo todo estão interessados em títulos da dívida brasileira, portanto, entram muitos dólares para especulação financeira.

Só que dólar também é mercadoria que obedece a lei de oferta e procura. Muita oferta, cai o preço. Quando cai o valor do dólar diante do real, duas coisas acontecem: as exportações ficam cada vez menos rentáveis e as importações ficam cada vez mais baratas.

O IBGE publicou ontem um estudo no qual avalia que o menor ritmo de crescimento do setor industrial brasileiro deve-se ao “maior nível de importações nos últimos meses, os estoques elevados em alguns setores, as exportações crescendo de forma mais tímida e as paralisações do setor de petróleo”.

Portanto, se o governo gastar menos, a necessidade de endividamento será menor, a taxa de juros cairá, reduzindo a entrada de dólares, que vai aumentar a taxa de câmbio, incentivando as indústrias locais, que geram empregos.

Fui claro? Ou tenho que desenhar?

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Oposição: conivente por omissão

por Mara Kramer

Como brasileira, pura e simples, percebo, como muitos outros, que estamos vivendo em um país absorvido pelo caos. Um país onde o ufanismo do “estamos todos bem” convive com péssimos índices na educação, saúde, segurança pública, nos altíssimos valores da dívida interna, na mentira de que não existe uma dívida externa, na ausência de investimentos na infraestrutura, em um surgimento continuo de escândalos sobre corrupção nos organismos púbicos, cujo desfecho é a impunidade, no desejo do governo de turno de alcançar o monopólio institucional sem criticas.

Estamos vivendo uma era onde o presidente da república torna-se cabo nas eleições e rasga a lei eleitoral, tem expediente de trabalho, não cumpre o que diz, e, diz uma coisa hoje e outra amanhã sem sofrer qualquer tipo de incomodo ético. A recém eleita presidente semana passada prometeu realizar um governo austero considerando a fabulosa dívida interna do país. Dias depois difunde a noticia da possível compra de um novo avião presidencial (no máximo 10 países no mundo o presidente tem avião próprio, a cumprir-se a nova compra, os ricos brasileiros teriam 2), assim como a possível contratação de dezenas de novos funcionários não concursados para o Palácio do Planalto, e a ampliação do número de ministérios que já são 37.

O endividamento familiar e a explosão imobiliária já se tornam preocupantes, mas não parecem inquietar o governo, sobretudo o presidente, que se mantém no palanque desde o primeiro dia e dali ainda não saiu com sua pregação diária, que não raro esta sob bases falsas.

Jornais e jornalistas alinham-se, por interesses ou ideologia, mais pelo primeiro e menos pelo segundo, ao governo o apoiando em realizações ditas inéditas e redentoras do país, embora estas realizações não sejam nem originais, e muitas vezes não constituem de fato uma realização, sendo nada mais do que uma possibilidade de futuro. Por parte da imprensa observa-se a quase total ausência de crítica, como se de fato “estivéssemos todos bem”, e todos os dados que negam esta “realidade” são desconsiderados no discurso posterior.

Sem me prolongar, se estivéssemos “todos bem” não seria necessária a Operação Rio, pois questões sociais, urbanas, policiais e jurídicas em uma das maiores e mais ricas cidade do país estariam bem resolvidas. Ao contrario, vimos a intervenção militar em bairros do Rio como mostra cabal do fracasso das políticas sociais, infraestrutura urbana, e de segurança pública nesta cidade. Exemplo simbólico do que ocorre na grande maioria das cidades médias e grandes do país como todos sabemos.

Enfim, estamos vivendo um total caos nas instituições públicas, liderado pela ineficiência, ausência de ética, e desejo de autoritarismo do governo central que infesta de incompetência e imoralidade por onde passa, pela irresponsabilidade do poder judiciário na exigência do cumprimento da lei, pela cooptação interessada de muitos meios de comunicação, e pela negligência da maior parte da oposição.

Deste momento em diante passo a refletir sobre o último item, entendendo que a oposição, a partir de seu silencio frente à má gestão do executivo e a ausência de comprometimento com a parcela da sociedade que representa se torna cúmplice deste despautério.

Quando a oposição não cumpre sua tarefa de colocar limites na atuação governamental ela se torna conivente por omissão, e como efeito paralelo favorece o abuso de poder e a confiança na impunidade por parte da situação, assim como deixa sem voz o eleitorado opositor. Fazer oposição é um direito e um dever político na democracia, não uma opção partidária.

No sistema democrático é responsabilidade da oposição fiscalizar o governo institucionalizado em sua atuação frente à legislação vigente, a priorização das demandas e a vigilância dos interesses da sociedade, assim como defender as reivindicações do contingente opositor. Para tanto, a oposição deve ser constante, atenta, critica, e profissional. Deve denunciar abusos e incompetências, protestar publicamente, e agir com firmeza para impedir atos ilegítimos ou que lesem os interesses do povo.

O papel da oposição é igualmente relevante ao da situação, pois ambas representam parcelas da sociedade. A oposição é parte da democracia, sem a qual a democracia é imperfeita, perde qualidade.

A democracia é o sistema político do, para e pelo povo, e, portanto toda sociedade deve estar representada ativamente no campo político, não apenas a maioria que vence as eleições. Quando a oposição falha, ela retira de seus eleitores o direito de terem voz no debate político. Portanto é fundamental no sistema democrático o equilíbrio de poder entre situação e oposição.

A situação gestiona e realiza, e a oposição fiscaliza e limita através de sua presença e ações o poder institucionalizado. A ausência de equilíbrio entre ambas as forças, desestabiliza o sistema criando grandes ou pequenas anomalias prejudiciais ao seu funcionamento que terão conseqüências diretas ou indiretas na sociedade civil.

O equilíbrio entre os discursos situacionistas e oposicionistas frente à opinião pública deve estar evidenciado e simbolizado na exposição na mídia. Ambos os lados devem receber atenção similar dos meios de comunicação na busca de promover equidade no debate, como base de informação e politização da sociedade civil, também fundamentos da democracia.

Nesta ótica, a oposição deixa de ser vitima de monopólio mediático, e do ufanismo criado pelo governo petista, para tornar-se um dos elementos que contribuem para a sua existência. A oposição que denuncia no período eleitoral é a mesma que calou antes, e não agiu para a alteração de rumos das políticas que ora critica. A oposição que apontou os erros da administração de turno na campanha eleitoral, é a mesma que se cala frente a possibilidade de restituição da CPMF, a possível aquisição pelo Estado do Aero Dilma, ao fracasso das políticas públicas na área da segurança que resultaram na Operação Rio, a ampliação de CCs pelo governo federal, ao salário mínimo de R$ 540,00, às criticas e desvalorização do TCU como órgão fiscalizador por parte do governo, a absolvição de Palocci, a qual cria antecedentes para uma situação similar em relação ao José Dirceu, etc.

Neste sentido, verificam-se dois aspectos: primeiro, a dimensão alcançada pela atitude passiva de nossa oposição, que a coloca como conivente com o setor ao qual deve opor-se, ou seja, agrega força e poder ao seu opositor. Situação totalmente contraditória sob o ponto de vista conceitual, com importante repercussão na realidade; em segundo lugar, este fenômeno não parece ser produzido pela cooptação da oposição pela situação, mas pela incapacidade e  inabilidade política, assim como pela ausência de uma estrutura adequada  de nossa oposição para enfrentar o poder constituído, o que segundo Reinaldo Azevedo, deve-se a uma leitura equivocada da realidade.

Neste contexto, existe uma convicção inegociável, nosso interesse de manutenção da democracia, e com ela a oposição como um de seus fundamentos. Portanto, entendo que nossa tarefa como eleitorado opositor visa entender o comportamento da oposição e pressioná-la constante e firmemente para que ocupe o espaço que lhe pertence por dever e direito.

Assim, não resta outra que elaborar e divulgar uma segunda parte deste texto. Aguarde!

mkramer@estadao.com.br / @markramer

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Rio, 140 graus: Propaganda e contra-propaganda.

Esclarecendo, antes de começar: não sou carioca, não vivo no Rio, não gosto de futebol, o que inclui a copa do mundo, não gosto de violência, nunca dei um tiro na minha vida, não assisti Tropa de Elite e, sim, não votei da Vana porque defendo a democracia.

Indo ao tema, evidentemente acompanho atônito a movimentação de guerra na cidade do Rio de Janeiro, com absoluta certeza, o mais conhecido símbolo brasileiro, portanto, sinto-me absolutamente à vontade para falar a respeito.

Os moradores estão oferecendo apoio às ações militares. O engraçado é perceber que isso é “notável” porque até então, muitos consideravam que a população dava apoio aos bandidos que agora fogem em fila pelos caminhos mal traçados dos morros, esgueiram-se pelos becos ou se infiltram entre a população de bem, deixando para trás algumas armas e drogas, contrariando a expectativa de forte resistência do crime organizado.

Perceba quanta bobagem em uma só frase. Primeiro, o suposto apoio à bandidagem, depois, a avaliação do poder de resistência dos mesmos e, o mais sério, a também suposta “organização” dos criminosos.

Por um lado, isso demonstra que as demonstrações de força anteriores foram capazes de dar aos meliantes um status que não tem e nunca tiveram. Por outro, são, na melhor das hipóteses, um atestado de incompetência dos governos anteriores que convivem há mais de vinte anos com uma situação absolutamente vexatória.

Quem se lembra que Michael Jackson, Madonna e até o imbecil do Garotinho pediram autorização para “subir o morro”?

Era tudo propaganda enganosa!

Percebia uma movimentação interessante desde o lançamento de “Tropa de Elite”. Pela primeira vez, o cinema colocava os representantes da lei e ordem como heróis. Marketing puro e perfeito, adotado pelo mercado. As frases, bordões e “músicas”, passaram a ser repetidas à exaustão pela população.

Pode parecer teoria da conspiração mas o lançamento da continuação do filme e a sua aceitação ainda maior parece-me ter sido a “deixa” para que a bandidagem resolvesse retomar seu status quo. Dançaram.

Mas não é esse o ponto. A questão é constatar que somos bombardeados pela propaganda o tempo todo, de um lado ou de outro. A TV passa a considerar “um feito histórico a retomada da Vila Cruzeiro e do complexo do Alemão”. Retomada? Como assim? Quer dizer que um punhado de pés-de-chinelo covardes “tomaram” uma área com 400 mil moradores e nós não fizemos nada?

Educação é a única resposta para promover o senso crítico da população. Mas isso é perigoso porque, no momento em que passar a pensar, o cidadão não votará em chefe da contravenção ou em ficha suja, imaginando com isso garantir uma bolsa alimentação.

O cerco agora deve ser levantado por toda a população contra a ignorância e pela educação.

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Voluntarismo terceirizado (ou a cortesia com o chapéu alheio)

É impressionante analisar a base de praticamente todas as campanhas para reeleição dos mandatários de cargos ao legislativo de qualquer esfera. O discurso é sempre o mesmo – fulano trouxe mais dinheiro para o estado/região, sicrano teve mais emendas aprovadas etc.

O engraçado é que a campanha é para o legislativo e não para o cargo de lobista ou interveniente pecuniário.

Supostamente o legislativo deste país deveria elaborar e fiscalizar o cumprimento das leis (pasme, é por isso que se chama legislativo), mas no Brasil quem mais legisla é o executivo (de novo, você pode não acreditar, mas em qualquer lugar minimamente civilizado, o executivo executa).

Voltando ao tema, não bastassem senadores e deputados declarando que trouxeram milhões para o estado, também o presidente da república teve a ousadia de dizer que investiu zilhões nesta terra.

Vamos pensar a respeito um pouco. Como eu sempre costumo lembrar aos incautos e apedeutas, por definição, o Estado não produz nada. Se não produz, não tem o que vender; não vendendo, não tem receita; se não tem receita, o dinheiro de que necessita é recebido de terceiros, que somos nós, agentes produtivos, que pagamos a conta.

Quando suas excelências dizem que trouxeram ou investiram no estado querem, na verdade, dizer que devolveram um pouco do que nós lhes confiamos através dos impostos pagos à custa de muito esforço, e que hoje já ultrapassa 40% do PIB do país e que, em alguns casos, atinge 70% do valor do que se compra.

Visto dessa forma, o grande favor feito por esses hipócritas é quase um despautério, porque é exatamente a mesma situação de alguém que toma à força o dinheiro da minha carteira e depois quer agradecimentos por devolver uma parte.

Impressiona ainda mais que muitos eleitores continuem aceitando tais argumentos com a maior naturalidade e ainda aplaudindo os enormes feitos dessa gente.

Vamos esclarecer uma coisa: realmente existem muitos heróis em nossa história mas esses são os que, como você e eu, produzimos e pagamos os impostos.

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E de Gaulle tinha razão!

A frase foi atribuída a Charles de Gaulle, então presidente francês, que teria dito que “Le Brésil n’est pas un pays sérieux” o que em bom português indica o que já sabemos e que nos é constantemente lembrado “o Brasil não é um país sério”.

Os exemplos se multiplicam incontáveis. É uma verdadeira praga nacional que, apesar da internet, não conseguimos combater.

Aqui os fatos tem muito pouca ou nenhuma importância, sendo sempre mais importante a sua versão. Eu mesmo, recentemente fui “convidado” a explicar à justiça qual o sentido daquilo que havia escrito, simplesmente porque um procurador resolveu procurar (e achar, claro) algum tipo de manifestação de preconceito em um texto no qual eu, na verdade, criticava a postura do governador em relação a índios e sem-terra.

Mas foi só uma conversa amena, advogado, dinheiro, tempo mas tudo se resolveu…

O problema é maior quando a honra das pessoas é atingida diretamente, utilizando-se de subterfúgios jurídicos como forma de emprestar legalidade a atos com motivação político-ditatorial.

Estamos diante de uma situação complicadíssima em que o estado de direito se transforma em policialesco.

Refiro-me especificamente à operação Tellus deflagrada pela Polícia Federal em MS, em função de suposta fraude cometida por funcionários do INCRA, entre eles meu amigo Waldir Nascimento.

A investigação aparentemente chegou a indicar o “quantum debeatur” de R$62 milhões… coisa de Polícia Federal mesmo.

Só alguns probleminhas poderiam trazer dúvidas, não fosse a disposição pelos holofotes, entre eles, o fato de que a atual administração combateu as fraudes cometidas anteriormente, reduziu em mais de 30% o custo do metro quadrado construído nos assentamentos, regularizou vários, retomou lotes que haviam sido comercializados ilegalmente e que esse valor nunca chegou a ser aplicado pelo órgão, o que o transforma em uma impossibilidade matemática.

A qualquer perito – e eu sou um – isso soaria como um alarme, mas não aos diligentes policiais federais que pediram e conseguiram a determinação da prisão de 20 pessoas, entre elas, a do superintendente do órgão em MS, Waldir Nascimento (Veja aqui sua declaração à imprensa).

Ao juiz, no entanto, coube a cereja do bolo. O meretíssimo resolveu que “… não há uma prova fulcral, até nesse momento, que aponte Waldir como co-autor”, mas, em seguida, declara solenemente e em maiúsculas “DEFIRO A PRISÃO TEMPORÁRIA”. É algo definitivamente incoerente e seria cômico, não fosse trágico.

Onde, afinal, está o nexo entre esse juiz e o outro, que numa flagrante afronta à liberdade expressão, amordaçou o Jornal O Estado de São Paulo, que não pode há mais de um ano, publicar nada relativo ao clã Sarney e suas estrepolias.

Por experiência própria, sei que aqui é muito árido o caminho de quem decide não se alinhar com os mecanismos de auto-manutenção das estruturas de corrupção. O que os vetustos senhores beneficiários não esperam é que, em algum momento, a sociedade passe a reconhecê-los como os grandes responsáveis pelo câncer da miséria e da falta de educação de nosso povo.

Nesse momento, tudo mudará, mas enquanto isso, continuamos não sendo um país sério.

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O PT, o FGTS e a Petrobrás

Esta imagem é a reprodução da obra de Joseph Wright, de 1771, que retrata um alquimista em seu laboratório lúgubre, buscando produzir a pedra filosofal (Lapis Philosophorum).

Segundo se acreditava, esse objeto poderia transformar qualquer metal em ouro, além de produzir o elixir da vida eterna.

Uso a ilustração para remeter à política petista que, ao que tudo indica, conseguiu produzir uma pedra filosofal “ao contrário”, transformando ouro em lixo.

Sou um crítico feroz do hábito petista de utilizar-se das empresas públicas para abrigar seus seguidores, desconsiderando sua capacitação.

Neste país inculto, para atingir o sucesso tornou-se mais importante a filiação partidária do que o grau de instrução.

Mas eu não gosto de falar sem provar o que digo – o que costuma me trazer alguns problemas no relacionamento com a classe política tradicional.

Neste caso especificamente estou me referindo à Petrobrás, que teve este ano o segundo pior resultado entre as petrolíferas do mundo. Só perdeu o posto para a BP, aquela responsável pelo maior desastre ecológico da história da humanidade. (duvida? veja aqui )

Dá pra entender a razão? Depois de tanta conversa a respeito do tal do pré-sal, tantas descobertas de “novas reservas”, como é que o resultado é tão ruim?

Mas não é só isso. Nosso orgulho nacional está se transformando numa verdadeira PetroTabajara em todas as áreas. Até os Fundos FGTS vinculados às ações da antiga vedete nacional foram para o buraco, sendo eleitos como a pior aplicação do mês de junho passado, amargando 6,11% de queda. (também não está acreditando? confira)

Será que essa sucessão de revézes tem a ver com a composição do conselho, que ostenta todos os ícones petistas, entre eles a Sra. Vana? (Duvidando, né, então olha aqui).

Ainda assim, o congresso nacional aprovou uma das maiores falcatruas que eu já vi: Autorizou o aumento do capital da empresa petista com base nas supostas receitas da extração do petróleo do pré-sal, mesmo sem saber como isso se dará (ou quando).

O engraçado é que entre os candidatos atuais, poucos se atrevem a discutir o tema. Só ouvi duas figuras se aventurando a contestar essa história da carochinha: Eliseu Padilha (PMDB/RS – @eliseupadilha, 14/Ago 8h19min) e Esacheu Nascimento (PMDB/MS), que ousaram discutir a manipulação política dessa suposta riqueza.

Como se vê, a pedra filosofal petista conseguiu transformar a riqueza em dúvida e opinião em subserviência.

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